Quando partiste levaste contigo parte da minha alma, que
acredito te quis acompanhar nessa viagem que não querias fazer.
Deste lado da vida, ficou-me a pele que cobria um corpo
descarnado, por força do sofrimento que antecedeu a tua partida e da dor do
tempo que lhe seguiu.
Por dentro só sentia que não ficara oca, pela dor
penetrante que sentia e que parecia querer consumir o pouco que restava de mim.
E era esse resto que por ser tão
pouco e tão insignificante, me mortificava tratar. Doía lavar e doía cobrir.
Era como se a água ao cair sobre ele o rasgasse e pusesse a nu a ferida
desmedida que sentia no peito e que gorgolejava dor, angustia, tristeza,
saudade, mágoa e revolta.
Cada adormecer avivava em mim a
esperança de estar a terminar tamanho suplício e cada despertar reacendia a dor
por ter que suportar nem que fosse mais um dia nesta dimensão que eu tinha
urgência em deixar.
Assim qualquer coisa servia para
tapar aquele corpo que eu não sentia, que ficara num mundo de onde eu, se pudesse
partiria. Cobri-lo estava à mercê do que a mão alcançasse ao abrir da primeira
porta ou da primeira gaveta.
E os dias foram correndo e os
meses e até os anos.
A pouco e pouco o corpo foi
ganhando a forma de antes, mas a dor que vinha de dentro, essa mostrava que a
ferida se mantinha, surgindo porém de tempos a tempos momentos de bonança que
abriam em mim a ilusão fugaz de que havia iniciado o caminho da cura.
Sem me dar conta, comecei a abrir
mais que uma porta, ou mais do que uma gaveta para o cobrir e o contacto com a
água passou o ter o efeito purificador e catalisador que lavava as minhas
mágoas, que aliviava a minha dor e que trazia alguma paz ao meu coração. Assim
foi-me trazendo a esperança de que o tempo será o único remédio que me poderá
conduzir de novo à vida, não àquela que tinha antes de partires, mas a que me
ficou por inventar, por descobrir, de forma que o tempo que me resta aqui, deste
lado da vida, me traga paz e algum prazer.
(Texto escrito em maio de 2008)
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