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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O Poder do Abraço

O abraço será sem dúvida a forma mais intensa de fazer a transferência de boas energias, de amor e carinho de uma pessoa para outra.
Mas quem nunca experimentou dar um abraço apertado a si mesmo, numa hora de vulnerabilidade, de tristeza ou de solidão, nem imagina o poder que tem. 
Ainda hoje não o dispenso, porque o meu abracinho tem um gosto especial... É como se a alma alimentasse a matéria, para que ela por cá possa continuar....
Aprendi-o nas minhas leituras e testei-o em mim mesma, nos tempos em que me sentia sozinha e perdida...
Nas minhas lides pelo voluntariado, fazia-o com "os meus meninos" e propunha que o fizessem antes de adormecer e a cada acordar, repetindo a frase: Gosto Muito de mim! 
Porque apenas cada pessoa tem a obrigação de gostar de si mesma. Os que nos cercam e até a família, podem gostar ou não. 
Como costumo dizer, quem poderá gostar de nós, se nem nós gostamos?
Ontem no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Cuba, tivemos Abraços embalados pela música que se soltava da viola da querida e doce animadora sócio cultural...Alguém que também trabalha com o coração! 
Foram momentos mágicos, de amor! 
 Houve demonstrações de alegria e até houve lágrimas de emoção.... 
Também lhes deixei a dica do abracinho antes de adormecer e ao acordar, com a frase milagrosa: Gosto Muito de Mim! 
Por tudo isto, que usemos e abusemos do Abraço, porque ele pode ajudar a  reconstruir, ou pelo menos minimizar o estrago daquilo que a Vida possa ter deitado por terra....  

sábado, 10 de outubro de 2015

Cuidadora

Acredito que todos vimos a este mundo com uma missão, com um propósito! Julgo que eu vim para cuidar!
Desde muito jovem que cuido de alguém!
A primeira pessoa de quem cuidei foi da minha avozinha. Recordo-me que, muito nova ainda ajudava-a a lavar-se, a levantar-se e deitar-se e a muitas outras coisas.
Depois segui esta minha missão cuidando de todos aqueles que fui encontrando pelo caminho, envolvendo-os com as minhas asas de cuidadora.
Cuidei de filhos, pais, companheiro de grande jornada, de muitos meninos que me foram emprestados ao longo de mais de 30 anos e que sentia também um pouco meus, durante as horas que os tinha a meu cargo.
Se ao longo de todo esse tempo também precisei ser cuidada? Certamente que sim! Mas a essa necessidade sobrepôs-se sempre essa vontade imperiosa de cuidar, que me fazia esquecer-me um pouco de mim.
Talvez por isso ao longo de tanto tempo, quase sempre enverguei a capa de mulher forte que carregava a garra para todas as lutas. Que protegia e cuidava de todos!
Porém chegou um dia em que  olhei em volta e todos aqueles que havia cuidado tinham desaparecido ou haviam deixado de precisar do cuidado de antes.
Confesso que me senti perdida, mas logo descobri uma nova direcção para encaminhar as minhas asas protectoras. 
Foi aí que chegaram os"meus meninos" de cabelos brancos! 
Voltei a sentir que estava a fazer aquilo que me trouxe cá e fui esticando as asas e o coração, albergando um a um, os três grupos a que me fui dedicando.
Fiz da acção de cuidar o meu propósito de vida e acalmava o coração com a alegria que lhes dançava nos olhos quando estavam comigo! Alimentava-me com os seus sorrisos, os afagos de mãos e a ternura que me dedicavam.
Julguei que esse seria o bálsamo que me iria adoçar o resto do tempo que  a Vida me concederia para continuar por cá.
Cuidar, cuidar, cuidar... Isso preenchia-me.
Mas quase que por magia, um dia alguém surgiu no meu caminho e a pouco e pouco foi-me convencendo  a deixar-me cuidar... 
 Senti então que chegara a hora de aceitar esse convite, o de me deixar cuidar novamente.
De arrecadar um pouco a capa e as asas protectoras e dar umas férias à mulher sempre forte que me forcei a ser. De perder o medo de falhar com alguém, ou de ser perfeita, dando conta de tudo ao mesmo tempo, excepto de mim. 
Sinto que durante quase todo o tempo, com tanto desejo de não falhar e ser perfeita, acabei falhando com alguém, mas principalmente comigo mesma, nunca me colocando em primeiro lugar, porque houve sempre outros que precisavam mais.
Claro que uma parte de mim, iria ficar sempre alerta para, ao menor sinal, correr para cuidar.
Claro que ao pensar que alguém iria cuidar de mim, esse alguém também iria ficar debaixo das minhas asas de cuidadora... Mas para já, apetecia-me ser cuidada e esquecer-me um pouco de cuidar... nem que fosse só um pouco... nem que por algum tempo queria esquecer-me de ser a mulher forte de sempre...
E tão pouco tempo pedi à Vida, que Ela entendeu que mal eu decidira apenas deixar-me cuidar, voltou a colocar-me nos braços alguém para cuidar e fazer-me adiar um pouco a minha vontade de  ter um tempo para apenas me deixar cuidar... 
Dizem que temos tudo aquilo que pedimos... talvez mais uma vez, esqueci-me de mim, como sempre fiz... pedi tão pouco...
Certo que aprendi a ser paciente, mas também aprendi como pode ser breve o tempo que nos é concedido... Talvez por isso, adiar uma decisão tomada, provoca-me  alguma ansiedade...
Mas também aprendi que Viver é aproveitar as pequenas coisas e cada momento.  Isso é conciliável com qualquer situação, desde que estejamos despertos para aquilo que é realmente importante e o que conta não é a quantidade de momentos em que nos sentimos bem, mas a riqueza de cada momento de felicidade...
Nenhuma tempestade dura para sempre, o Sol acaba sempre por despontar, afastando as nuvens, por mais negras e espessas que elas sejam...



quarta-feira, 22 de julho de 2015

Aceitar que tudo é efémero

É preciso passarmos por estados de limite, para crescermos espiritualmente.
Depois de passarmos por situações difíceis e sobrevivermos a elas, começamos a ver tudo com outros olhos, a tomar consciência da realidade das coisas e surge a capacidade de aceitação.
Apesar de ainda em fase de evolução em relação a algumas situações que continuam a provocar-me algum desconforto, sinto que reajo de forma muito diferente de há alguns anos atrás.
Ainda não consigo reagir bem à ingratidão e às injustiças de que já tenho sido alvo, mas sinto que estou no bom caminho, posso dizer que apenas fica um ligeiro amargo no peito e chego até a sorrir condescendente.
Acredito que a Vida/Deus nos põe à prova, porque viemos cá para vivenciar determinadas situações e evoluir em determinados aspectos. Para que tal aconteça, são-nos colocadas pessoas que nos vão desafiando com as suas atitudes, até que a evolução esteja completa.
Pensando desta forma, hoje estou grata a algumas pessoas que me magoaram de tal forma que eu acabei mudando o meu rumo de vida e transformando-me num ser humano melhor.
Hoje aceito com mais facilidade aquilo que é, aceito que cada pessoa tem a sua maneira de ser e tenho mais facilidade em decidir se me mantenho por perto, ou se me liberto e sigo a minha viagem, sem mágoas nem rancores, certa de que a aprendizagem foi feita.
Hoje, dificilmente me prendo a situações ou coisas que não sejam mesmo importantes, porque quero deixar o coração com espaço livre para apreciar aquilo que é realmente digno de ser vivido.
Aprendi que nada é mesmo nosso, apenas podemos usufruir das coisas e da companhia das pessoas por empréstimo e por tempo limitado. Assim sendo, respeito e aceito.
Por tudo isto preocupo-me ao máximo em aproveitar cada oportunidade para viver intensamente aquilo que me dá alegria, prazer e me mantém feliz. Nos momentos mais difíceis, procuro ver o lado menos negro, procuro a luz que me irá mostrar a solução, que nunca irei encontrar se me mantiver presa na escuridão.
Lidar com idosos da forma como o faço, mantendo com eles uma relação estreita como mantenho, só é possível porque estou consciente de que um dia chegarei e poderei já não os encontrar fisicamente.
Aconteceu ontem e já tem acontecido outras vezes. De todas as vezes, não consigo chorar, nem sinto dor... Em seu lugar sinto no peito uma estranha tranquilidade e um imenso carinho que quase me traz um sorriso de amor e emoção...
Partiram depois de uma vida longa e cheia... Deixaram tanto deste lado da vida... deixaram também uma parte comigo, pelo que ficarei eternamente grata... Do fundo da minha alma, sai sempre a mesma prece: Descanse em Paz! Até um dia! 
Depois há que ter serenidade para lidar com a situação e falar com os outros que ficaram de coraçãozinho triste, porque um membro da "família" partiu...
Assim foi ontem, em que ficámos muito tempo à conversa, rodando o rosário das recordações e falando desse tempo que é finito e da melhor forma como dele usufruir.
Falei-lhes de como entendo o nosso ciclo, da necessidade de ter a consciência tranquila...da Paz interior.
A pouco e pouco restabeleceu-se a serenidade e quando o consegui, aí senti vontade de chorar... chorei por dentro de emoção e de orgulho por ter conseguido salvar aquelas horas e ter tido a capacidade de aliviar tantos corações... e fiquei grata... Imensamente Grata!

Foto de 2012 no Lar de Colos

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Adaptação do Jogo 4 em Linha

Decidi criar uma adaptação do Jogo 4 em linha, para permitir integrar mais elementos em cada jogo e também para rentabilizar recursos.
Esta modalidade permite que 3 idosos participem ao mesmo tempo em cada jogo.
Usei folhas de cartolina A4, que dividi em 42 partes. Depois utilizei pequenos quadrados de borracha de 3 cores diferentes, para cada elemento ir marcando as suas casas.
No final ganha quem tiver conseguido fazer mais sequências de 4 peças em linha, seja na vertical, horizontal ou diagonal.
Para marcar as casas poderia ter utilizado outros materias recuperados, como botões, tampas de garrafas, rodelas de cortiça pintadas...
As minhas meninas do Lar de Colos já testaram e aprovaram a ideia! 


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Jogo dos 4 em linha

Ontem no Lar de Colos introduzi um jogo novo - O jogo dos 4 em linha.
Este jogo, como é sabido consiste em colocar 4 peças seguidas na vertical, horizontal, ou diagonal e evitar que o outro jogador  o consiga em primeiro lugar. 
Foi novidade para quase todas as meninas, apenas uma delas já conhecia.
Ficaram interessadas e quiseram aprender a jogar, de tal forma que teve que haver um jogo de cintura para que todas tivessem oportunidade de jogar e de repetir várias vezes.
Foi engraçado quando elas, quando travavam o jogo da parceira,  diziam: Agora vou estragar-te a vida! 
Acabei por não utilizar outro material, dado o sucesso obtido.
O único constrangimento foi o tamanho das peças que é reduzido, tornado-se mais difícil introduzi-las na ranhura, mas acaba também por favorecer a exercitação da motricidade fina.
Quando comprei o jogo tive logo essa noção, mas há tempo que procurava e decidi adquiri-lo mesmo assim. 
Esse aspecto negativo deu-me a ideia de improvisar outro jogo do mesmo tipo.
Quando o tiver concluído vou deixar aqui a ideia. 
Lamento não ter ficado com registo fotográfico da actividade, mas o entusiasmo foi tal, que nem me lembrei.  Fica para uma próxima oportunidade. :)


sábado, 19 de julho de 2014

Os meus meninos de cabelos brancos

Hoje apetece-me falar dos meus meninos de cabelos brancos!
Eles continuam a inspirar-me um carinho imenso e quando lhes faço abrir sorrisos ou risos, sinto-me abençoada pela capacidade que mo permite.
Dos três grupos, é no Lar de Colos que o grupo é constituído na maioria por pessoas idosas, algumas delas muito debilitadas. 
Quando lhes seguro na mão para os ajudar a sentar, a levantar ou a mudar de lugar, o peito dá sinal. Por vezes aperta-se-me ao pensar que já foram jovens e fortes e agora estão assim frágeis, à mercê de quem deles puder cuidar. Sinto que  a minha força interior se agiganta e quero tanto protegê-los...
Recordo-me dos meus pais, da minha avozinha...
Penso também como tudo  é efémero e como o tempo para estarmos bem fisicamente se esgota, pelo que volto a acordar comigo mesma o meu propósito de sempre que é viver tudo que for possível em cada momento, apreciando as pequenas coisas, valorizando tudo aquilo que a Vida generosamente me dá.
Quando me dizem que o bocadinho que estive com eles foi bom, que se esqueceram das dores e da tristeza, o meu coração quase rebenta de emoção e sinto uma sensação de orgulho, por ter conseguido tal feito.
Quanto ao meu grupinho do Centro de Dia, está  a ficar muito reduzido. Algumas das minhas meninas ficaram mais debilitadas e deixaram de participar nas actividades. Outras já partiram. Sei que esta etapa é natural, ainda mais na idade em que a maioria se encontra, mas fico com saudade... 
Há 9 anos quando comecei a frequentar o Centro de Dia, o grupo era enorme... 
Neste grupo tenho uma menina linda, que completou 101 anos e que está maravilhosa em todos os sentidos.
O 3º grupo, da Aldeia do Cano, embora tenha algumas meninas já com mais de 80, tem outras que em comparação ainda se podem considerar jovens.
Com este grupo posso desenvolver outro tipo de jogos, porque quase todas têm uma capacidade de locomoção ainda aceitável e outras muito boa. 
São estes meninos que me ocupam 3 tardes por semana, o que faço com muito carinho e muita alegria, enquanto me for possível.
Sinto-os como se fossem minha família e sei que também nutrem por mim um enorme carinho, carinho de mães.
Daqui a mais uma semana vou estar um tempo ausente para repôr energias e para me mimar um pouco a mim mesma, mas algo cá dentro se aperta um pouco porque fico com aquela sensação de que vão sentir a minha falta. Então procuro o lado positivo da situação e penso de vou voltar renovada e por isso mesmo com muito mais para lhes dar.
Amo muitos estes meus meninos de cabelos brancos!!! 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Recordações da Páscoa de antigamente

Versos

Quarta -feira de endoenças
Quinta-feira de paixão
Sábado de aleluia
Domingo de ressurreição (D. Idália)

Costumes:

Na Quarta-Feira de Trevas não se podia torcer a roupa.
Desde o meio-dia de Quinta-Feira  até ao meio-dia de Sexta-Feira não se podia mexer no chão. 
Nesse tempo nem lavavam o chão, nem varriam as casas nestes dias. 
Não se podia comer carne na Sexta-Feira e na Páscoa não se devia comer animais com penas.
 Havia o hábito do jejum. Daí estes versinhos de que se lembrou a D. Maria Guerreira:

Versos

Domingo de Ramos mati um pássaro
Domingo de Lázaro o depeni
E Domingo de Páscoa o almoci

 Em Colos o sino costumava tocar ao meio-dia de Quinta-Feira e as pessoas paravam de trabalhar no campo até ao meio dia de Sexta-Feira. 
A D. Idália contou que uma vez o manajeiro do trabalho onde andava, não as mandava parar com o trabalho e ela disse-lhe que já estavam a "fazer pecado", porque já passava do meio dia. Ele perguntou-lhe como é que ela sabia ao que ela lhe respondeu  que a sombra já estava inclinada, por isso já era mais do que meio dia. Ao meio-dia a sombra estava direita.
Nesta época as pessoas não tinham relógio e orientavam-se pelo Sol. Havia quem tivesse relógios de Sol, que só serviam quando havia sol.


Quadras dedicadas às novas barbeiras do Lar de Colos

Em virtude da senhora que tinha a função da barbeira no lar de Colos, ter deixado de lá exercer funções, este serviço passou a ser desempenhado pelas próprias funcionárias.
Então o Sr Joaquim Silva, um poeta de mão cheia, fez estas quadras para homenagear as ditas funcionárias.

Mote
Muitos parabéns quero dar
A estas novas barbeiras
São muito boas para barbear
Com muito boas maneiras.

São amigas do utente
Tratam-nos com muito jeitinho
Mostram-lhes muito carinho
E muito alegremente
O idoso está contente.
Não há razão de se queixar
Se a coisa assim continuar
A mudança tem bom jeito
Por isso o digo com respeito
Muitos parabéns quero dar.

Esta crise já passou
Meteu medo nessa hora
A barbeira foi-se embora.
Mas a crise terminou
Tudo isto aqui andou
Resolveu-se da melhor maneira
Sem haver grande canseira
Tudo foi remediado
Por isso digo muito obrigado
Às nossas novas barbeiras.

Têm todas bom feitio
Para lidarem com o cliente
Até parece que fazem brio
Da profissão ir para a frente
Agradam a toda a gente
Não se pode clamar
Nem razão para se queixar
Porque não há qualquer razão
Por isso o digo sem presunção
São muito boas a barbear.

As barbeiras são alegres
Muito boas para a profissão
Deviam ter uma condecoração
Durante tempos muito em breve
Têm modos muito alegres
Não há nada de canseiras
Foram estas as primeiras
Que meteram mãos à arte
Ponho tudo aqui de parte
Com muito boas maneiras.

Sr. Joaquim Silva 18-02-2014

quarta-feira, 5 de março de 2014

O Carnaval da bisavó Maria


Este Conto de Carnaval foi escrito propositadamente para ser lido na Sessão de Actividades sobre o Carnaval, que teve lugar no sábado passado, no Polo de Leitura/ Espaço Internet. 
Foi baseado nas recolhas que tenho feito em conversas com as "minhas meninas", nas sessões de voluntariado no Cercal, Aldeia do Cano e Colos. 



Estava a aproximar-se o Carnaval!
Na escola da Mariana e do Pedro, a professora propôs que fizessem uma pesquisa acerca do Carnaval de antigamente e ainda sugeriu que alguma das crianças que tivesse uma avozinha ou um avozinho já velhinhos, poderia convidá-lo(a) a ir à escola para contar como se divertia no Carnaval, quando era criança.
A Mariana e o Pedro olharam um para o outro e sorriram. Lembraram-se logo da bisavó Maria. Ela certamente aceitaria o convite e não se importaria de ir contar a todos os meninos aquelas histórias tão divertidas que lhes costumava contar a eles
Mal chegaram a casa, telefonaram logo à bisavó e fizeram-lhe o convite com grande entusiasmo.
- Claro que vou! Mas digam-me com tempo, porque tenho que me arranjar. Não vou para lá de qualquer maneira. – Disse logo a bisavó.
A bisavó Maria tinha quase 90 anos, mas gostava de se pôr bonita. Ia de vez em quando à cabeleireira, ainda gostava de pintar as unhas e quando saía, pintava os lábios e vestia a sua melhor roupa.
As crianças achavam-lhe imensa graça.
Depois de combinarem a data com a professora, avisaram a bisavó Maria, para que ela tivesse tempo para os tais preparativos.
No dia previsto, o pai levou as crianças e a bisavó até à escola. A bisavó ia linda e muito animada, distribuindo sorrisos por todas as crianças, pelas professoras, funcionários e toda a gente que encontrava.
A Mariana e o Pedro estavam radiantes! Aquela sua avó era um espanto! Velhota, mas mesmo fixe!
A professora recebeu-a com todo o carinho, arranjou-lhe uma cadeira mais alta e confortável e todas as crianças ficaram de olhos postos na bisavó Maria e no seu rosto iluminado por um sorriso doce e bondoso.
Então bisavó Maria - Disse a professora- conte-nos lá como se divertiam as crianças, os rapazes e as raparigas no seu tempo de juventude.
Então a bisavó começou a contar:
- Quando eu era nova, chamávamos Entrudo ao que agora chamam Carnaval.
Naquele tempo não havia lojas dos Chineses, nem outras quaisquer onde pudéssemos comprar roupas para nos mascararmos.
- Então não se mascaravam?- perguntou uma criança
- Claro que nos mascarávamos! Vestíamos roupas velhas dos pais ou avós, mas tinham que ser bem compridas para não nos verem os pés e não nos conhecerem pelos sapatos.
Na cara púnhamos um trapo com uns buracos na direcção dos olhos, para vermos o caminho, ou uma meia de vidro preta. Alguns rapazes faziam caraças (que vocês chamam máscaras), com cortiça e prendiam à cabeça com cordas ou arames. Não era fácil, tinham que furar a cortiça para abrir o buraco dos olhos e abrir buracos dos lados para colocar as cordas ou os arames.
Depois juntávamo-nos em grupinhos com os irmãos, que nesse tempo eram sempre muitos, ou com amigos ou amigas e íamos de porta em porta. Às vezes davam-nos bolos, ou uns “tostanitos”. Outras pessoas zangavam-se e nem nos abriam a porta.
Lembro-me de uma vez que ia com a minha mana, eu ia vestida de mulher e ela de homem. Eu levava ao colo um boneco feito de pau e vestido, enrolado num xaile da minha avó, para parecer uma criança de colo. Fomos bater a uma porta e a mulher veio toda zangada com um pau na mão, para nos meter medo. Começámos a correr com medo e a certa altura a minha caraça de trapo saiu do sítio e eu deixei de ver o caminho. Acabei por cair num buraco, mas não fiquei mal. A minha mana ajudou-me a levantar e mesmo às escuras, porque naquele tempo as ruas tinham luz fraca e outras nem tinham nenhuma, ela ajudou-me a pôr os buracos na direcção dos olhos e ainda nos fartámos de rir com o que aconteceu. Tivemos sorte nessa noite, porque na outra casa onde batemos, deram-nos bolos e ainda umas moedinhas para comprarmos rebuçados de meio tostão, que eram uma delícia.
As crianças riam da história da bisavó Maria.
Continuou ela:
- Também costumávamos mandar “presentes” umas às outras.
Apanhávamos bichos (ratinho pequeno, lagartixa pequena, aranhas, gafanhotos…) e metíamos em caixas de fósforos, embrulhávamos em papel e fazíamos um lacinho e depois mandávamos entregar a uma amiga. Havia quem também mandasse cabeças de galos ou galinhas,  uns grãozinhos de arroz, ou de massa, 1 ou 2 feijões, ou grãos. Depois escreviam um bilhetinho a dizer que era para fazerem o jantar no Dia de Entrudo.
Havia quem juntasse os cacos da loiça que se partia durante o ano, para depois ir atirar, ou deixar à porta de outras pessoas. O que tinha sempre mais graça, era deixarem um penico partido à porta de alguém.
Havia ainda os rabos, que fazíamos com tirinhas de papel e prendíamos com um alfinete dobrado e depois pendurávamos nas costas da roupa de quem ia a passar. Era uma risada, ver o moço, ou a moça andar com o “rabo” pendurado!
Também alguns rapazes formavam ranchos e faziam roupas com sacos e pregavam bugalhos e depois corriam a aldeia a dançar e a cantar ao som de realejo. Chamavam-lhes os Ensaiados-
Havia ainda os bailes de máscaras, onde dançavam e se divertiam.
As raparigas costumavam mascarar-se de homens e os rapazes de mulher. Mas também podiam ir sem ser mascarados. 
Havia também a “cavalhadas”, em que alguns rapazes, em cima de burros, tinham que rebentar balões que eram pendurados em traves altas. 
Era muito divertido brincar ao Entrudo! Quando era da vossa idade e mesmo depois, enquanto era nova, adorava! – Dizia a bisavó Maria, de olhinhos a brilhar.
 As crianças estavam deliciadas com o que a bisavó Maria contava e a Mariana e o Pedro estavam orgulhosos com a forma com a sua avozinha estava a portar-se.
No final a professora sugeriu que o tema do próximo Carnaval, poderia ser “ O Carnaval no tempo das avozinhas”.  Todas as crianças aplaudiram e a bisavó Maria encantada, piscava o olho aos bisnetinhos que não se seguravam de tão contentes que estavam, pois já sabiam que com tanta roupa que a bisavó Maria tinha no baú do sótão, ideias não iriam faltar. 
Mas a bisavó, que tinha o coração cheio de bondade, ofereceu logo ajuda e roupa para alguma criança que não tivesse.  Aí foram risos e palmas e a professora convidou a bisavó Maria, para ajudar as crianças a trajarem-se no dia do Desfile. Ela aceitou de imediato e sentiu vontade de também ela participar no Desfile… mas o pior é que as suas pernas já não aguentavam grandes caminhadas…     

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Voluntariado - Forma de Recolher e Partilhar de Tradições

Através das conversas que vou estabelecendo com os "meus meninos" dos vários grupos em que faço Voluntariado, procuro sempre saber o mais que me é possível de como se vivia antigamente, quais os seus hábitos, como se divertiam, como se vestiam, como eram as casas, que tipos de trabalho faziam... 
Julgo de grande importância que os nossos jovens e as crianças, tenham conhecimento de que o modo de vida não foi sempre igual ao que é hoje.
Devem saber que apesar da situação actual estar muito difícil, há muitos anos atrás, as pessoas viviam com muito pouco e que aquelas coisas que para nós hoje são básicas, nesses tempos nem existiam.
 Em cada época procuro recolher costumes referentes à mesma.
De momento estou  a fazer uma recolha sobre os costumes de Carnaval. Embora já o tenha feito no ano anterior e tenha deixado o registo por aqui, há sempre algo de novo que alguém se possa recordar, deixando a recolha mais completa. 
Tenho também estado  a fazer uma recolha de testemunhos acerca da Vida da Mulher, nos tempos antigos. Foi um trabalho que me foi pedido e que vai ser utilizado na comemoração do próximo Dia da Mulher. 
Aceitei com muito gosto, porque a meu ver este dia deverá ser utilizado em primeiro lugar para reflexão acerca do papel da mulher na sociedade e das alterações que ele vem sofrendo ao longo dos tempos. 
Relativamente ao Carnaval de antigamente, tive a ideia de pegar nos testemunhos que recolhi e com eles criar uma História Infantil, de forma a dar a conhecer às crianças, estas tradições. 
Este simples trabalho vai ser lido na próximo sábado, no Polo de Leitura da nossa terra, para as crianças que aparecerem a participar na sessão. 
No que respeita às recolhas feitas acerca da Vida da Mulher, farei um relato conjunto, no qual reunirei os pontos comuns, já que os testemunhos recolhidos vão ser publicados num trabalho a nível do Concelho.
Esta minha actividade de Voluntariado tem-me dado oportunidade de me inteirar de realidades que de outra forma desconheceria, de factos e tradições que tenho a possibilidade e o dever de partilhar, para que sejam do conhecimento de muito mais gente.
Com pena minha, tenho absoluta consciência que muito se vai perder, ou já se perdeu. Resta-me agarrar tudo aquilo que ainda puder...


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Actividades de Voluntariado

Já há tempo que não deixo aqui os habituais relatos das minhas actividades com os "meus meninos" de cabelos brancos!
Embora os projectos com os três grupos continuem a bom ritmo, as actividades realizadas não têm sofrido grandes alterações e para não cair em repetição contínua, não tenho aqui deixado os registos com a frequência inicial.
Tenho feito várias pesquisas para encontrar sugestões de jogos e exercícios para esta faixa etária e encontrei algumas coisas que tenho estado a trabalhar, de forma a exercitar a memória, os reflexos, a destreza manual... 
Ultimamente temos feito alguns jogos com a utilização de uma bola e obedecendo a alguns temas que vão alternando.
Escolhido o tema, cada elemento vai para o centro da roda, lançando a bola e dizendo uma palavra. Quem recebe, antes de devolver, tem que dizer também uma palavra do mesmo tema. 
O jogo termina quando todos os elementos têm vindo ao centro, para fazer os lançamentos.
Os temas têm sido variados: frutos, alimentos, peças de vestuário, objectos de casa, objectos por divisão da casa, nomes de animais, de pessoas, rimas, antónimos. 
Além destes jogos, mantém-se a leitura de contos, os provérbios, as lengalengas e memorização de poesias, criação de histórias, ou situações a partir de algumas palavras e o momento de ginástica.
Nesta actividade tem havido uma boa evolução. Tem aumentado o tempo dos exercícios em pé e também o nível de dificuldade dos mesmos. 
Claro que em todos os grupos há pessoas mais idosas que realizam apenas os exercícios que conseguem e de acordo com as suas capacidades. Há quem realize grande parte dos exercícios, sentado. 
Além de tudo isto, em todas as sessões tem sempre lugar um tempo de descontracção, de brincadeira e de relaxamento, onde procuro dar algumas sugestões para que consigam alcançar um estado de bem-estar. 
Todas as sessões terminam com palmas e muita alegria! 

Última tarde em Colos
 
Última tarde no Centro de Dia do Cercal 

Última tarde na Aldeia do Cano


domingo, 22 de dezembro de 2013

Os "meus meninos"

Talvez porque estamos no período de Natal que senti vontade de reflectir sobre a minha relação tão especial com os "meus meninos"!
Esta é sem dúvida uma relação de amor e de partilha e por isso tem tudo a ver com o espírito natalício.
Só que para amar e partilhar, não é preciso esperarmos que o calendário anuncie que é Natal. Natal deveria ser todos os dias, ou melhor dizendo, todos os dias deveriam ser dias de dar amor e de partilhar aquilo que temos de sobra.
Pensando bem, todos temos algo que nos sobra, que não nos faz falta. Podem ser bens alimentares, pode ser dinheiro, mas também pode ser apenas umas horas do nosso dia, ou um pouco de amor e carinho dos nossos corações.
Tudo pode ser partilhado e por vezes um pouco do nosso tempo para dar atenção, para ouvir, para fazer um carinho, para dar um abraço, para segurar a mão é o que de mais valioso podemos dar a quem não tem fome nem sede e apesar de ter pouco dinheiro, este é-lhe suficiente para aquilo que precisa.
Assim é a  minha relação com os "meus meninos"!
Com eles partilho um dos meus bens mais preciosos - o meu tempo. Nesse tempo que estou com eles dou-lhes aquilo que brota da fonte inesgotável que tenho dentro do peito e que não custa dinheiro. Por vezes levo-lhes um miminho para lhes adoçar a boca, mas sei que o que eles mais agradecem é aquilo que lhes dou e lhes adoça a vida. 
Também eles não se ficam atrás em dádivas! Eles abrem para mim a sua torneira de sabedoria e abrem-me os seus lábios em sorrisos e as suas bocas em risos. Se eu chego de mãos frias, seguram-mas e partilham comigo o seu calor, aquecendo-as... Nesses momentos não há palavras para descrever o que sinto... 
Há quase nove anos que dura esta partilha de saberes e de afectos. Muitos já partiram para o outro lado da vida, mas do grupo inicial ainda se mantêm uns quantos que com o decorrer do tempo me foram entrando fundo no coração e sei que não será fácil despedir-me deles um dia... Em parte, são também a minha família e muitas vezes vejo-me a partilhar com eles as alegrias e as tristezas que acontecem na minha vida. E quando lhes falo de alegrias, seguram-me nas mãos, sorriem e dizem-me que eu mereço ser muito feliz... 
Amo muito esta minha família do coração, que nos últimos anos foi alargando!  Sinto uma necessidade premente de  proteger estes meus meninos de cabelos brancos, e tenho por todos eles um enorme respeito pelo que são e pelo que foram.






Natal de Antigamente

Com a ajuda das "minhas meninas" e sem grande habilidade ao nível da poesia,  preparei este simples trabalho que apresentámos  na Festa de Natal das Escolas.
Aqui fica a título de curiosidade:



Natal da Avozinha
O Natal da avozinha
Era muito diferente,
Não era o Pai Natal
Quem trazia os presentes.

Era o menino Jesus
Que muito, muito à noitinha
Vinha pôr no sapatinho,
Às crianças as prendinhas.

Essas prendinhas, não pensem
Que eram coisas de valor.
Bonecas de trapo, carrinhos de lata,
Rebuçados ou chocolatinhos
Lenços de assoar ou meias,
Tudo dado com muito amor.

Na véspera de Natal
Todos de volta da lareira,
Conversavam, jogavam às cartas
Em alegre cavaqueira.

No final do serão, 
já se sabia como é
Comiam carne de vinha d’alhos
Acompanhada com café.

Era sempre ao acordar,
Com o coração aos saltinhos
Que as crianças corriam à cozinha
Procurar as prendas no sapatinho.

E na manhã de Natal,
Armava-se logo o banzé.
Comiam fatias de ovos
Acompanhadas com café.

O jantar(*) de Natal
Decorria em grande alegria
Pois era dia de festa
E toda a família reunia.

Jantar de grão ou de couve
Era o que a maioria tinha,
Ficando para a gente rica,
Um simples ensopado de galinha.

Como veem, meus amigos
O Natal antes era bem diferente,
Mas não faltava a verdadeira alegria,
No coração de toda a gente.

Não precisava haver luxos
Nem comidas especiais.
Contentavam-se com o que tinham,
Como se não precisassem de mais. 

*  Quando se fala em jantar, refere-se ao almoço actualmente, porque antigamente as refeições eram diferentes.

Recordações de serões à lareira

Contam as minhas meninas que antigamente, como as pessoas tinham pouca roupa, tinham muitas vezes que lavá-la já de noite e secá-la ao lume, para vestirem no dia seguinte. 
Dizem que ao serão costumavam torrar grãos, fazer "freiras" (milho torrado), assar bolotas das azinheiras e quando não encontravam assavam mesmo as dos sobreiros e faziam tibornas (pão torrado com azeite). 
Uma coisa de que nunca tinha ouvido falar e me contaram é que havia quem fizesse uma mistura a que chamavam café, fervendo em água códeas de pão queimadas. 
Durante o serão iam comendo, contando contos e adivinhas.
Quando havia trovoadas punham um ramo de oliveira e uma tesoura aberta, atrás da porta. Nessas noites apagavam o lume e chegavam a apagar também os candeeiros a petróleo ou as lamparinas de azeite com que se alumiavam. Acreditavam que o fogo atraía  fogo e temiam que caísse algum "perigo" sobre a casa.
Na véspera de Natal, juntavam-se à volta da lareira, jogavam às cartas, contavam contos e adivinhas e antes de se irem deitar, bebiam café e comiam carne de vinha d'alhos. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Hábitos de Antigamente

Como se fazia o sabão no período de racionamento:
Misturavam borras de azeite, toucinho rançoso esmagado, cal e potassa e depois punham  a secar.

Como esfregavam as madeiras:
As mesas e cadeiras de madeira, antes dos dias de festa ou de feira, eram esfregadas com ramos de carqueja e sabão. Só mais tarde apareceram as escovas para esfregar móveis e soalhos. 

Compras:
Tudo o que precisavam comprar, faziam-no nas pequenas mercearias. Todos os produtos eram comprados avulso, de acordo com as posses de cada família. Com 10 tostões chegavam a comprar café e açúcar. Quando iam às compras levavam os talegos de pano para trazer as compras. Grande parte dos produtos eram acondicionados em cartuchos de papel. 

Água:
Não havia água encanalizada nas casas. As mulheres iam buscá-la em quartas de barro que traziam à cabeça ou ao quadril.

Lenha:
Também a lenha para fazer lume no qual cozinhavam os alimentos era trazida do mato em feixes. Estes feixes eram trazidos à cabeça. Quem não podia ir buscá-los, ou não tinha ninguém da família para o fazer, comprava a rapazes que ganhavam a vida dessa forma. Havia também quem andasse a vender estevas e carqueja para atear o lume. 

Matança de porco:
O dia de matança do porco era dia de festa, mas também de muito trabalho. Era hábito oferecer "um presentinho" às vizinhas e pessoas mais chegadas. Este "presentinho" constava de: um bocadinho de papada, outro de entrecosto, outro de carne magra temperada, outro de toucinho e carne de ossos. 
Tudo isto era colocado dentro de uma tigela de esmalte e era tapado com um pano. Muitas vezes os "presentinhos" eram tantos que pouca carne ficava, o que causava alguma preocupação.
As pessoas que recebiam costumavam dar do que tinham, como por exemplo ovos, fruta...

Costume dos patrões pelo Natal:
Os homens que trabalhavam no campo, podiam trabalhar à jorna ou "ser justos". Os que trabalhavam à jorna, ganhavam um tanto por semana. Os que eram "justos", recebiam uma parte em bens alimentares. Nas véspera de Natal era hábito receberem um bocado de toucinho, um bocado de carne de ossos, um bocado de linguiça e outro de chouriço e uma couve, ou grãos, para o "jantar" de Natal.