quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Recordações de dias de Inverno

Como na Terça-Feira da semana passada, o tempo estava mau, propus às minhas meninas de Colos, falarmos dos dias de Inverno, no tempo da sua mocidade. 
Contaram-me que era o tempo da apanha da azeitona, iam á púcara e à bolota, iam buscar lenha que traziam em feixes à cabeça e apanhavam pardelhas nos regatos, que depois fritavam. 
Dizem que naquele tempo qualquer regato, por pequeno que fosse, tinha muitas pardelhas. Metiam uma saca aberta dentro de água e tiravam-na cheia de pardelhas.
Em relação aos regatos dizem que era hábito beberem dessa água quando tinham sede, no entanto antes de beber, benziam a água com a seguinte oração:

Nossa Senhora por aqui passou, com um martelinho na mão, para matar todo o bichinho que faça mal ao coração.
Depois de benzida, bebiam a água descansados. 

Com as bolotas que apanhavam, faziam "enfieiras" e depois comiam-nas cruas, cozidas numa panela de barro ou assadas no lume ao serão. 
Falaram muito no "respeito" que tinham pelas trovoadas e de algumas pessoas que conheceram que morreram no campo queimadas pelos raios que caíam sobre as árvores e de algumas vacas mortas.
Dizem que às ovelhas não acontecia nada, porque a lã as protegia. 
Contam que as trovoadas chegavam a durar 1 ou 2 horas. Costumavam tapar todos os metais de casa com mantas de lã (ferros da cama, lavatórios) e até as pessoas costumavam embrulhar-se em mantas de lã. Nessas alturas também não faziam fogo, porque diziam que o fogo atraía o fogo. Chegavam até a apagar os candeeiros e ficar às escuras.
Nesses dias de muita chuva e trovoada, só quem guardava gado, ia trabalhar. 
Durante a trovoada costumavam dizer orações e cantar o "Bendito Louvado".

Bendito Louvado
Bendito Louvado seja o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. É do fruto e é do ventre sagrado e é da Virgem puríssima, Mãe Santa Maria.

Oração da Trovoada

Vi vir trovoada
acolhi-me ao travisco,
bradei por Santa Bárbara
acudiu-me Jesus Cristo.

(Recolha feita no Lar de Colos)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ser Voluntária

Ultimamente não tenho deixado aqui o registo das actividades que vou desenvolvendo com cada um dos três grupos a que me dedico.
Isto prende-se com o facto de que as actividades acabam por se repetir, pelo que não considero de interesse descrevê-las semanalmente.
O que vos posso dizer é que o tempo cada vez se torna mais escasso para realizar tudo aquilo a que me proponho.
Tenho dado ênfase aos exercícios para exercitar o cérebro, mas também aqueles que proporcionam momentos de alegria e descontracção, em que todos se entregam de uma forma que me surpreende. Adoro vê-los rir, sim porque eles não se ficam pelos sorrisos, riem até às lágrimas com alguns jogos de Expressão Dramática. 
A Actividade Física, que se constitui por exercícios de ginástica e coreografias, continua a representar o  momento alto, que todos continuam a apreciar bastante. 
Depois há a parte da recolha dos saberes que eu valorizo imenso, pelo que tento despertar-lhes as memórias, porque tenho a noção de que há imensas coisas que se vão perder. 
Hoje realizou-se em Colos um Encontro de Idosos de várias Instituições da Santa Casa da Misericórdia. Com imenso gosto e carinho preparei umas actividades com base na ginástica ritmica, com duas coreografias, para dinamizar o Encontro.
O que vos posso dizer? No momento entreguei-me por completo e ver a forma como cada um, de acordo com as suas capacidades, foi colaborando, encheu-me de alegria e de emoção. Ver todos aqueles "meninos" a mexer, uns de pé, outros mais limitados, sentados, aqueles bracinhos todos levantados... foi lindo...
Mais uma vez senti como é gratificante este "trabalho" a que me dedico e que me faz sentir grande, por ter a capacidade de criar momentos de alegria e bem-estar a estes meninos de cabelos brancos.
Cada vez mais me fica  a certeza de que o voluntariado permite-nos trazer o dobro daquilo que levamos. A energia pode vir em baixa, pela intensidade com que me entrego, mas o coração vem cheiinho a deitar por fora!



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Aniversário do Principezinho

Hoje é Dia de Festa!
 Festa de muito alegria e felicidade. Festa que se vive especialmente dentro de muitos corações.
E não duvido que esta celebração não se fique por esta dimensão, acredito que lá bem longe, do outro lado da vida também seja dia de espreitar cá para baixo com orgulho e emoção.
Como o tempo corre... Parece que foi ontem que me deparei com aquela imagem que jamais se apagará da minha memória, menos ainda do meu coração...
Naquela cama de hospital, eu voltei a ver-me a ser mãe pela primeira vez, só que em meu lugar estava a minha menina feita mulher a oferecer-me o fruto do seu amor.
Ao lado, estava ele, tão lindo, tão doce, tão pequenino...
O meu coração quase explodiu com tanta emoção e pela minha mente corriam a uma velocidade vertiginosa tantos pensamentos...
Mas tudo apagou quando mo colocaram nos braços. Aí só consegui olhá-lo e sentir que uma fonte de amor me transbordava do peito e sem pronunciar palavra, dizia-lhe : meu amorzinho... amo-te muito...
Hoje faz 1 ano que vivi essas emoções tão intensas!
O meu menino está lindo, cheio de energia e eu apesar de longe, sinto-o sempre pertinho do coração.
Não acompanho todas as suas descobertas, mas quando estou com ele, tudo pára na minha vida e ele é o centro onde tudo acontece.
Amo-o muito, mas quero amá-lo com um amor verdadeiro, sem apego exagerado, sentindo-me feliz sabendo que está bem, estando sempre de braços abertos para o acolher e dando-lhe tudo de mim se ele necessitar.
É esta a minha forma de o amar, desejando para ele todas as bençãos que a Vida tem para oferecer e desejando acima de tudo que no seu coraçãozinho crepite sempre a chama do Amor!




quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Actividades Criativas com Idosos

Constituição de histórias

A história inicia-se a partir de uma frase a que cada elemento irá acrescentando outras de modo a constituir o enredo de uma história, ou de uma situação de vida. A trama vai tendo a sua sequência, mas os últimos elementos terão que a terminar.

Ex: Uma noite a D. Júlia estava deitada e ouviu um barulho no quintal...

Devo dizer que a tendência é sempre para inventarem acontecimentos trágicos!

Outra versão

Na passada Terça-Feira, em conjunto com a animadora juntámos várias ideias, e criámos algumas variantes da mesma actividade:

- Histórias contadas com apoio da mímica (gestos)
- Histórias que iam terminar numa cantiga Alentejana previamente estabelecida.
Ex: O sr José andava a pastar um "rebanhito" de ovelhas...  que terminava na cantiga - Lírio Roxo do Campo

Esta última versão foi muito apreciada e tenciono aplicá-la nos restantes grupos.

Expressão Dramática

Cada elemento passa uma bola ou outro objecto, dizendo: tome lá este(a)...
Esta passagem é feita mediante ordens.
- agora está zangada                         - agora quer dar, mas arrepende-se
-agora está contente                         - agora a bola está colada
- agora está a cantar                         - agora a bola está escorregadia
-agora está a chorar                         - Agora a bola pesa muito
- Agora está com medo                    - Agora a bola está muito quente
- Agora vamos subindo o tom de voz
- Agora vamos descendo o tom de voz
                             ..............................................
Devo dizer-vos que as pessoas se entregam de tal forma ao papel que desempenham que o jogo se torna hilariante.

Destreza Manual

Colocados em círculo, cada elemento tem uma bola. Ao som de uma canção, todos vão passando a bola ao colega do lado direito e recebendo a do colega do lado esquerdo. Isto decorre ininterruptamente enquanto dura  a música.
No final, cada elemento deverá ter apenas uma bola na mão.
Quando o jogo não corre bem, poderá haver elementos com 2 bolas e outros sem nenhuma.
Este jogo embora parece muito fácil, requer destreza manual, agilidade e muita atenção.



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Ao Luar

Nada como ficar no silêncio da noite, ao luar para serenar a mente e o espírito! 
Tanta beleza encanta-me!
De olhos abertos, focados no céu, aprecio  a beleza da luminosidade do luar, das estrelas e dos outros pontos brilhantes que decoram o firmamento.
Cá em baixo, são as sombras dos ramos que a brisa delicada da noite agita  levemente e as outras sombras que se mantêm estáticas e imponentes. 
De olhos fechados o encanto não é menor, porque chegam até mim, um a um os sons, desde os mais próximos aos meus longínquos, quase imperceptíveis. Com eles vêm os aromas e a brisa que me toca a pele como uma carícia. 
Depois, sem a visão a distrair-me a atenção, vejo-me por dentro e sinto que a Paz reina, tanto na mente, como no coração. 
Perante tanto silêncio, a mente fica muda, serena e no peito sinto a mesma limpidez que no céu, sem uma nuvem sequer.
Fico ali extasiada ora passeando por fora, ora passeando dentro de mim e tanto quando estou fora, como quando vou lá bem ao fundo de mim, sinto uma Alegria indescritível, uma Paz sem limites e um plenitude perfeita. 
E ali passei a limpo todas as horas que gastei neste dia que está a findar, não para me julgar e menos ainda condenar, mas para ter a certeza de que estou no bom caminho e que estou a  aprender a aproveitar da melhor forma cada momento que se me apresenta, que estou a aprender a lidar com o medo que sempre me condiciona e também a focar-me o máximo de tempo possível no presente, no Agora, evitando sofrer com as dores do passado, ou de ficar ansiosa com o que poderá vir a acontecer no futuro.
Depois de tudo visto e revisto, fica a certeza de que foi um Bom Dia, desde o primeiro momento e que amanhã a Vida me irá dar de presente mais uma nova oportunidade para novo recomeço! 



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Se eu Pudesse Transformar o Mundo

Se eu pudesse transformar
O mundo, que bom seria!
Não havia vagabundo
Só havia amor profundo,
Todos tinham alegria.

O rico amava o pobre
E se sentiam iguais!
Não havia homem nobre
Os filhos amavam os pais.

Não se falava de guerra
Neste mundo universal
Havia paz sobre a terra
E não havia nenhum homem
Que a outro fizesse mal.

Pedia aos meus descendentes
Para só falarem verdade!
Dessem provas convincentes
Verdadeiras, conscientes
Para bem da humanidade.

D. Maria Alice (do seu livro editado em 1984)
Aldeia do Cano



Comida (poesia)

Gosto de toda a comida,
nisto sou um campeão.
Como tudo com gosto
mas não sou um comilão.

Gosto de carne assada
e de toucinho entremeado,
de chispe de porco salgado
e gosto também de carne guisada.
Também de língua estufada
e gosto de carne cozida,
de mioleira mexida
e de torresmos gosto muito
e também gosto de presunto.
Gosto de toda a comida.

Gosto muito de espetada
e de carne à  Alentejana,
gosto de rancho à Transmontana
e de uma bela caldeirada,
também gosto de dobrada
e gosto do bom pão,
gosto de empadão,
também de peixe espada,
gosto de uma sardinhada,
nisto sou um campeão.

Gosto de bife de cebolada
e de sopa de cação,
gosto de abóbora com grão
e de lula recheada,
de costeleta panada
e tripas à moda do Porto
e também de entrecosto
e gosto de bacalhau cru,
também gosto de peru.
Como tudo com gosto.

Gosto de farinheira
e gosto de ensopado,
também de peixe grelhado
e de carne à jardineira,
frango à churrasqueira,
também gosto de feijão
e gosto de macarrão
e de caldo verde com chouriço.
Gosto de tudo isso,
mas não sou um comilão.

Sr. Custódio Ramos - Aldeia do Cano