quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Pura Amizade (poesia)

Pura amizade, é dar
não é magoar.
É incentivar,
não é descrer.
É apoiar,
não é ofender.
É compreender,
não é humilhar.
É defender,
não é julgar.
É aceitar,
não é esquecer.
É perdoar!
Amizade é
simplesmente Amar...

D. Arminda Maria Raposo - Aldeia do Cano

domingo, 6 de outubro de 2013

Passeio pela Praia

Hoje fui visitar o meu amigo Mar!
Mas desta vez foi diferente da maior parte das visitas que lhe faço!
A grande maioria, chego até ele com o coração apertado de tristeza e dor e vou de mansinho, muitas vezes com a torneira da alma aberta, para que ele me ajude a fechá-la, para que ele me alivie a pressão que me comprime o peito.
Todavia hoje foi diferente!
Hoje cheguei até ele de sorriso aberto, de coração sereno e de alma liberta.
Ele como sempre estava encantador e era quase só meu. 
Certo que ele sempre me encanta, mas aprecio-o mais, quando não há muito ruído entre nós. Mesmo que eu raramente fale com ele sem ser através do pensamento, todo o ruído envolvente atrapalha a nossa comunicação.
Mas hoje não, havia silêncio, apenas quebrado pelos sons que lhe são característicos como o murmúrio das ondas a rebentar na praia e a música das aves que o sobrevoavam, no seu feliz e sereno esvoaçar.
Ele estava lá longe, deixando-me areal a perder de vista para percorrer e rochedos para contornar.
E eu ora caminhava, ora parava para me sentar e ficar a contemplá-lo. Mas logo me levantava e continuava  a caminhar, braços abertos à brisa, olhos erguidos, ora para ele ora para o céu e o pensamento perdia-se ora dentro de mim, ora percorrendo rostos e situações vividas, ora fixando uma a uma as belezas que me cercavam. 
A certo momento uma onda de alegria, liberdade, paz e felicidade inundou-me de tal forma, que fez verter lágrimas de emoção e foi aí que lhe falei a ele e à Vida, com palavras que me foram saindo boca fora:
-Obrigada por tantas bençãos! 
-Obrigada por ter olhos para ver e sentir tanta beleza! 
-Obrigada por este coração que me salta no peito e que ainda tem o poder de se encantar! 
-Obrigada pelo amor que não deixa de crescer no meu caminho! 
-Obrigada por ter tudo quanto preciso para viver sentindo-me de bem com a vida, sentindo-me segura.
-Obrigada por poder optar por um qualquer caminho, não por necessidade ou interesse, mas por escolha livre e responsável! 
-Obrigada por cada dia, cada hora, cada momento que me é concedido para aproveitar da melhor forma, para ser eu mesma, sem capas de protecção, sem medos, nem preconceitos.
E depois de tantos agradecimentos, as lágrimas que mesmo assim coabitaram sempre com o sorriso, secaram e eu desfrutei de cada momento, observando cada pormenor como se fosse a última oportunidade que a Vida me estivesse a dar.
Depois voltei a casa, ouvindo dentro do peito uma sinfonia de sininhos, a tocar uma doce e bela melodia. 


Voluntariado Semanal

O tempo fica escasso para o registo semanal das actividades. 
Estas decorreram no Centro de Dia, na Segunda-Feira; na Aldeia do Cano, na Quinta-Feira e excepcionalmente na Sexta , no Lar de Colos.
Com todos os grupos realizaram-se exercícios para trabalhar a memória,  a destreza manual, exercícios de Expressão Dramática e de criatividade, quer com  a composição de desenhos, a partir de figuras geométricas, quer com a continuação de uma história que se iniciou com uma frase a que cada um dos elementos acrescentava outra, até que a história tivesse o seu termo quando chegasse o último elemento.
Este exercício foi experimentado apenas na Aldeia do Cano, para testar o resultado. O grupo aderiu bem à actividade e completámos 2 histórias.
Na próxima semana irei alargá-la ao grupo do Centro de Dia. 
Os exercícios para exercitar a memória, têm sido bem aceites em todos os grupos e os resultados também me têm surpreendido. É certo que em todos os grupos há elementos que têm que ser ajudados. Estes exercícios constam de repetir um determinado número de vocábulos por ordem. O nº de vocábulos a repetir tem a ver com o nº de elementos de grupo, já que cada elemento acrescenta mais uma palavra, depois de ter repetido ordenadamente todas as que já foram ditas. Em cada exercício varia o tema: animais, frutos, objectos...
Houve também em todos os grupos a Hora do Conto e da Poesia. 
As aulas de ginástica decorreram de forma normal, usando como material de apoio as bolas e as garrafas com água.
A coreografia só ainda não foi implementada no Lar de Colos, mas vai sê-lo na próxima semana, já que irá constar do programa de actividades a realizar no final do mês, num Encontro entre utentes de vários Lares, que vai decorrer em Colos. 
Esta coreografia vai ser realizada por todos os elementos do Encontro, sofrendo algumas adaptações de forma a ser praticada de pé pelos elementos mais activos e sentada pelos mais limitados. 
Ficam aqui algumas fotos da semana. 



Centro de Dia 

Aldeia do Cano

Lar de Colos

sábado, 5 de outubro de 2013

Reflexão

Ultimamente, em determinados momentos sinto que se me abre uma janela na mente, por onde descortino com uma lucidez incrível, situações que antes não entendia. 
Parece que sinto que a minha consciência se expande e se faz luz em tantos assuntos, antes obscuros.
A Vida é tão sábia e por trilhos que nem sempre entendemos leva-nos para o nosso verdadeiro caminho. 
Durante estas manobras surgem situações que nos provocam dor, cruzamo-nos com pessoas que nem sempre nos tratam como esperamos. Essas situações e essas pessoas abrem-nos brechas no coração e na alma. Daquilo que nos fazem, ficam mágoas, rancores e por vezes julgamo-nos abandonados por Aquilo em que acreditamos. 
 Mas nada é estático e o que em certa altura nos pareceu mau, foi afinal o sair da escuridão da noite, para a luz do dia.
Há tempos li algures que todas as pessoas com quem nos cruzamos na vida, têm o seu papel no nosso percurso e aquelas que mais mal aparentemente nos fazem, são às que devemos ficar mais gratos, porque elas estão simplesmente a cumprir o seu papel, a sua missão, que é de nos tirar do caminho que não é o nosso.
O que foi mau ontem, que nos pode ter provocado revolta, mágoa e dor, hoje, visto por outro prisma, pode ter-nos aberto outras janelas, por onde a luz mágica da Vida pode chegar até nós. É como se apenas se tivesse fechado uma porta que dava para uma cave escura, onde  deambulávamos caminhando em círculos, sem nunca sair do mesmo sítio. 
Pode parecer tolice, mas neste momento olho com compaixão e até com agradecimento para certas pessoas que se cruzaram no meu caminho.
Recuando no tempo, continua  a haver uma situação para a qual  ainda não encontro resposta convincente. Na perda do meu companheiro, continuo  a não vislumbrar um lado positivo, mas hoje sei mais do que sabia há uns tempos atrás.
Sei que só a maior dor e o maior sofrimento nos consegue despertar para a busca da realidade. 
Sei que muita coisa aprendi desde esse momento fatídico. Agora sou outra pessoa, que valoriza aquilo que é mesmo digno de ser valorizado e ignora o que não o é. Que já não se queixa, por coisas mínimas, que procura soluções e não fica a choramingar colada aos problemas.
Aprendi a conhecer-me por dentro, a apreciar a simplicidade e a beleza da Natureza, a não deixar instalar a amargura no coração e acima de tudo mantive a capacidade de me enternecer com o que é belo e puro, de amar e aprendi a amar  no plural.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Palmeira

Eu herdei uma palmeira e um terreno do avô do meu marido. Pena que já todos eles tenham partido.
A palmeira foi a última, também fiquei muito triste. Era uma planta centenária que em meu tempo mais nenhuma existe.
Eu tinha por ela estimação, o que não é de admirar, pois eu queria para as minhas filhas e netas, aquela palmeira deixar.
Todos temos o mesmo destino, isso sei que é verdade. Todos temos um dia que partir para a eternidade. Eu também acredito, que haja uma ressurreição, isso alguém ha de saber. Só Deus saberá quando isso vai acontecer.
O que escrevo, é verdade, não por ter sabedoria. Escrevo para as minhas filhas e netas, poderem ler um dia.
Quando eu já cá não poder estar, ao lerem estas palavras, de mim se irão lembrar. 

D. Glória - Aldeia do Cano

Poesia - O Destino do Meu Monte

Mote

Está o monte abandonado
só encontro a solidão,
não há gente, não há gado,
faz doer o coração.

I
De manhã quando acordava
ouvia o galo a cantar,
ouvia o cão a ladrar,
avisando que alguém chegava.
Com os meus vizinhos brincava,
mas tudo isto é passado.
O galo já está calado,
alguma raposa o comeu.
O cão de velhice morreu,
está o monte abandonado.

II
Ainda pensei que voltava,
para ouvir os passarinhos,
para ver os vizinhos,
como quando lá morava,
a bola com que eu brincava,
para ver o meu pião,
mas tudo foi ilusão,
tudo isto se findou.
Agora já lá não vou,
tudo isto é solidão.

III
O mato já chega à porta,
só o que vejo é silvados,
vejo os campos abandonados,
não se sabe onde era a horta.
A sua lida está morta.
Ele foi abandonado,
já lhe voou o telhado,
já caíu a arramada,
já não serve para nada,
não há gente e não há gado.

IV
Havia perús, galinhas,
ninhadas de pintainhos
e para fazer os seus ninhos
nos beirais, as andorinhas.
Ouviam-se as avezinhas
desde a Primavera ao Verão
e ouvia-se o trigueirão
a cantar de bico aberto.
Hoje está tudo deserto,
faz doer o coração.           

Arminda  Maria Raposo - Aldeia do Cano


Ser Criança

Há momentos em que sinto vontade de voltar  a ser criança, de fazer coisas que só as crianças fazem...
Quando digo voltar  a ser criança, tenho sempre a percepção de que nunca fui criança durante todo o tempo possível. 
Revolvendo o baú das recordações acho que as minhas memórias de criança, se ficam pelos 7 a 8 anos. E mesmo assim, tanto nesse período e mais ainda nos outros que se lhe seguiram, escuto as vozes habituais com tantos "Nãos"!
Não faças isso que te sujas, não faças porque és menina, não faças porque cais, não faças porque é feio e mais tarde, não faças porque fica mal, não faças porque as pessoas vão falar... 
De toda a minha infância guardo uns quantos momentos em que, às escondidas fiz "asneiras", a que antes chamo, coisas de criança. 
Recordo-me das fugas apressadas para brincar com outra criança vizinha, das viagens fantásticas através das manilhas das águas pluviais que iam ter a uma cerca que me parecia um mundo distante e de onde eu saia suja e cheia de teias de aranha na cabeça e de andar por cima das árvores e dos telhados do pátio da escola onde a minha mãe trabalhava. Era mágico! Sentia-me livre a fazer aquilo que me apetecia, dava livre curso à minha imaginação e via-me personagem principal de contos fantásticos.
 Só as aventuras pelo túnel de manilhas, deram origem a algumas tareias. Os vestígios eram evidentes, mas só deixei de fazer estas viagens, quando fui descoberta à saída. Até lá, arranjava sempre desculpas convincentes, que não me livravam da tareia, por vir tão suja, mas sempre me deixavam a possibilidade de, um tempo depois, voltar a embrenhar-me por aquele caminho fantástico e aterrador. 
Mas a minha aventura maior, foi quando me escapuli e entrei num carrinho de rolamentos de um vizinho. A rua era bastante inclinada e quando me vi, naquela descida vertiginosa de cabelos ao vento, o mundo quase parou, mas o meu coração que já ia disparado, quase me saltou de peito, quando ao longe, entre o sons dos nossos gritos,  das rodas a rodar e a chiar, soou a voz da minha mãe: Maria Luiiiiiiisa.... 
Escusado será dizer o que se passou a seguir, mas garanto que desta vez, nem custou nada. O sabor da aventura atenuou o resto. 
Mais tarde, já na adolescência, fui eu que comecei a dizer a mim mesma, o tal "Não", que me perseguira na infância. E dava comigo obedecendo às mesmas regras, de que não podia, não devia, não ficava bem, era melhor não...
Anos depois, sentia-me muitas vezes criança, quando com os meus alunos fazia brincadeiras e no fundo, divertia-me tanto ou mais que eles 
 Agora nas brincadeiras que crio para os "meus meninos", quando olho para eles e vejo que partilhamos o riso, nesses momentos sinto que a criança que está em cada um de nós, se liberta e está presente.
Hoje, já com mais de meio século de vida e através das leituras que tenho feito ultimamente, acredito que dentro de todos nós há uma criança, a criança que já fomos. Porém dentro de mim, há uma criança sedenta de ser aquilo que nunca  a deixaram ser e talvez por isso, em alguns momentos apetece-me dar-lhe aquilo que ela nunca teve. Dar-lhe a liberdade de o ser! 
Outro dia, diante do mar, num dia não convidativo à praia, senti vontade de me descalçar e correr de braços abertos por ali fora, rindo e gritando. Não o fiz, primeiro porque não estava sozinha e segundo, porque algo cá dentro voltou a dizer: Não, não fica bem, vão julgar que enlouqueceste. Depois pensei: E porque não julgarem que voltei  a ser criança? 
Outros desejos deste tipo me atentam. Desejos de fechar a sombrinha a deixar que a chuva me ensope literalmente, de colocar os pés em todas as poças de água que encontrar, de me rebolar pelo verde dos campos, pelos medos da praia e de fazer mil e uma coisas que não me deixaram fazer na altura própria. 
Sei que é tarde, para todas estas loucuras, mas para a criança que há cá dentro, seria apenas uma compensação, pelo que não a deixaram viver.
Creio que a solução, será voltar a fazer como na infância, às escondidas, cumprir se não todos, pelo menos alguns destes desejos, que para a minha idade são loucuras, mas vistas por outro prisma, são o voltar em plena liberdade, a ser criança!