terça-feira, 18 de setembro de 2012

Atividade Semanal em Colos

Ontem, as "meninas" de Colos estavam quase todas meio adoentadas, de forma que não fizemos Atividade Física.
Inicíamos com um Concurso de Provérbios Populares e perguntas de atualidade e outras que têm a ver com a região. Correu muito bem e elas gostaram.
De seguida li-lhes o conto "O Príncipe do Lodo" da obra "Contos Tradicionais Portugueses" de Ana de Castro Osório. Tinha uma história extensa, cheia de magia e mistério, encontros e desencontros e como sempre acontece, elas viveram passo a passo as aventuras e no final acabam sempre a bater palmas.
Depois foi a vez de treinar a memória com a repetição das lengalengas já trabalhadas.
Agora que o Lar dispõe de uma Animadora a tempo inteiro, tenho também oportunidade de articular com ela alguns trabalhos de decoração do espaço, que vai ficar um mimo!
O tema da conversa que propus, foi quais os trabalhos que realizavam na sua juventude. Não deu para fazer todos os registos, porque todas gostam de participar e contar as suas experiências em pormenor. Será um tema  a continuar no próximo dia. Depois farei uma síntese que publicarei aqui.
A seguir ao lanche e para terminarmos com animação, li-lhes algumas anedotas engraçadas e elas também me contaram algumas que se foram lembrando.
Claro que como sempre houve alguns versinhos, que ao longo da tarde se iam lembrando e eu gravei, para ir deixando por aqui.
Criei para cada uma, o Cartão de Participação nas Atividades de Voluntariado, com os seus dados e a fotografia e também lhes entreguei  cartões com o link do blog, para entregarem aos familiares, de modo a que também eles possam acompanhar as publicações da participação de cada uma delas. Achei que esta partilha  pode promover uma ligação mais estreita com a família. 


Versos de D. Maria Inácia - Colos

O Trigo
Com todo o meu merecimento
vou ao altar de sacramento
e tenho um valor profundo.
Com todo o meu merecimento 
vou ao altar de sacramento
e dou alimento ao mundo.
Para que eu de baga
hei-de ser grão
Deus me deu essa virtude,
é para que toda a gente cuide
que é de mim que se faz o pão.
À terra me deitarão
e ali me verão nascer 
e ali me hão-de vir ver.
Com todo o meu merecimento  
no altar de sacramento
não sou Deus, mas hei-de ser.

Deitarão-me no crescente   
e no alguidar e no forno
cresço a dobrar
no caldo ainda hei-de crescer
com todo o meu merecimento
no altar de sacramento
eu não sou Deus, mas hei-de ser.
Com todo o meu merecimento
vou ao altar de sacramento
e digo aquilo que sei.
Com todo o meu merecimento
vou ao altar de sacramento
e vou à mesa do rei.

( D. Maria Inácia tem 83 anos de idade e tinha bem memorizados estes versinhos)

Os versos foram transcritos na íntegra, sem alteração de formas verbais. 
Eles retratam as várias utilizações do trigo, desde a alimentação até ao seu uso nas cerimónias religiosas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Vila de Colos

Adeus oh vila de Colos
estás metida num buraco,
se não fosse o padre Eloi
não valias um pataco.

A vila de Colos tem
duas coisas que dão graça,
é o relógio da torre
e o candeeiro da Praça. (D. Idália)

Viva a vila de Colos
cada vez está mais concorrida,
tem um lagar à entrada
e um cemitério à saída.

Viva o Lar de Colos
e viva a sua Festa Anual,
vivam os seus habitantes
que têm um lindo mural. (D. Maria Guerreira)

Adeus oh vila de Colos
não és vila nem cidade,
és uma capela de ouro
onde brilha a mocidade  (D. Preciosa)

Adeus oh vila de Colos
já te estou a conhecer.
Tenho pena do local
onde estou a viver. (D. Joana)

Adeus oh vila de Colos
Estou aqui com muita alegria.
Nunca pensei na minha vida
vir para aqui um dia.  (D. Emília)

(Algumas destas quadras são antigas, outras foi criadas no momento)

Sonhar

Sempre me conheci uma sonhadora! Comecei a sonhar muito cedo! Já em criança sonhava para encher o vazio que me cercava. Ao sonhar inventava companhias com quem brincava e ficava tudo tão real, que apenas me faltava vê-las.
Quando alguma tarefa menos agradável me era destinada, mergulhava a fundo no mundo do sonho e da fantasia e realizava-a quase sem dar por isso. Enquanto o fazia, via-me princesa ou rainha ou então fada ou feiticeira, uma daquelas personagens mágicas das histórias que me costumavam contar.
Fui crescendo e a capacidade de sonhar, bem como a dimensão dos sonhos foram crescendo comigo.
Grande estava a ficar o meu pássaro do sonho! Cada vez voava mais alto! Então os sonhos de brincadeiras viraram sonhos de amor! Como eu sonhava...
E comecei a misturar tudo, o amor dos príncipes e das princesas com o das personagens dos romances que então lia... E sonhava, com um coração doce e puro que apenas queria encontrar o amor, que somente queria amar e ser amada. 
Era tão cedo! Mas aquele pássaro de asas longas e destemidas não me dava sossego. 
Um dia o meu coração sonhador, sedento de afeto, abriu-se talvez à mais nobre forma que o amor pode ter, no qual ele se traja de vestes de tonalidades delicadas e suaves, na sua forma de amizade.
E com palavras ditadas pela alma a pouco e pouco fui dando tudo aquilo que se ia libertando do âmago do meu interior profundo. Tudo aquilo que representa o verdadeiro amor, aquele em que apenas se quer dar. E dei! Durante meses e meses dei aquele amigo de quem desconhecia o tom de voz, o som do riso ou o brilho do olhar. Aquele amigo, a quem sentia uma alma gémea da minha. Aquele amigo, que tal como eu, se dava, abrindo-me um coração, que eu adivinhava puro e sonhador que nem o meu.
E ao mesmo tempo que dávamos de nós, o sonho ia crescendo imparável, neste meu coração sonhador. E eu, em silêncio, via-o crescer, fechando a sete chaves este segredo. Um dia, sem saber como, dei-me conta que as vestes de cores leves e suaves, haviam adquirido tonalidades fortes e brilhantes e aí o sonho escapuliu-se das minhas mãos! Estava grande demais e eu deixei de conseguir segurá-lo! Foi aí que a amizade virou o tal sentimento sublime, no qual cabem todos os outros. O tal que nos pinta estrelas no olhar, que nos agita o coração, nos faz tremer as pernas... O tal sentimento onde continua a caber a amizade e o companheirismo a que se junta tudo o que de nobre e puro pode libertar-se da alma de um ser humano e mais ainda da alma de um coração sonhador, como foi, é e será o meu, enquanto um sopro de vida e uma réstia de entendimento houver em mim.

sábado, 15 de setembro de 2012

Sou adepta do Amor


 Sou adepta do Amor!
O Amor é o meu clube do coração! Também pode ser o meu partido. Pensava ser apartidária, mas afinal descobri que o não sou.
Sou adepta incondicional do Amor! Sou militante ferrenha, sou lutadora incansável pela sua ideologia. Sempre combati nas suas fileiras, batalhando com a bravura de um soldado nas trincheiras.
Por ele sempre dei o corpo e a alma em qualquer batalha sem medo, nem sequer colocando a remota hipótese de ser batalha perdida. Pelo amor, vale a pena lutar com o corpo e com a alma!
Pelo Amor, cedo levantei o estandarte e pelegei, como brava guerreira, sem ao menos descansar, enquanto a vitória não estivesse à vista.
Eu sou pelo Amor! Pela sua pureza e pela sua grandiosidade! Ainda hoje, é por ele que rio, me emociono e choro.
Hoje sinto-me soldado na reserva, mas nunca dissidente, pois nunca voltarei as costas e tão valorosa missão. Embora a força para lutar se vá esvaindo, ainda existe em mim um rastilho daquela que já existiu em tempos e é com ele que, sempre que posso ajudo outros nessa lide fenomenal.
 Sou e sempre serei adepta do Amor! O meu coração irradia felicidade ao ver o Amor florindo primaveril, na troca de olhares e carinhos entre dois jovens, trazendo-me à lembrança momentos já vividos. Mas a emoção sobe mais alto quando me deparo com o amor  refletido nos dedos entrelaçados daqueles que, mesmo já no outono ou inverno da vida, não deixaram de se amar. Aí deixo de segurar a fonte das lágrimas e choro, choro sempre, não de inveja, mas pelo que, por forças superiores e tudo quanto existe nesta dimensão, fiquei privada de ter. 
Mas não importa! Sou e sempre serei adepta do Amor!
Só os adeptos do Amor poderão atingir o climax da felicidade!  O Amor vale sempre a pena, pois quem não o tiver encontrado ao longo do seu percurso, poder-se-á dizer que passou pela vida sem viver.
O Amor é vida e eu sinto-me orgulhosa por sempre ter abraçado tal causa, a causa do Amor!

( texto escrito em agosto de 2006)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Como era o Exame da 4ª classe

A D. Preciosa conta com muito orgulho como foi o seu exame da 4ªclasse. 
Foi o único que fez, diz com algum ressentimento, porque a mãe não quis que ela fizesse o exame de admissão para poder continuar a estudar. A razão é que os irmãos nem tinham ido à escola. 
Então como morava em Colos, foi fazer o exame a Odemira. Foi num carro de parelha e ficou cinco dias numa pensão, para fazer a Prova Escrita e a Prova Oral. 
Conta que estreou um vestido creme, cujo feitio custou 30 escudos, o que era caro na época. Levou umas meias 101 (eram meias de seda, as melhores que havia) e uns sapatos de vernis. 
Na Prova Escrita, diz que apareceu lá o diretor e correu a sala a ver todas as provas e depois pegou na dela  e disse que era a letra mais bonita da sala. A D. Preciosa conta isto com um largo sorriso de orgulho. 
Na Prova Oral, diz que soube tudo, no livro, no quadro e ao mapa. Conta que tinham que saber muitas coisas. 
Certo que tenho uns aninhos a menos que a D. Preciosa, mas também me lembro do meu exame da 4ª classe. Lembro-me que também estreei um vestido que era azul com umas aplicações de flores brancas bordadas. Levei uns sapatos de vernis e umas peugas brancas. 
Recordo-me que a meio da Prova Escrita tínhamos que fazer durante um tempo, um trabalho de croché ou bordado. Já sabia fazer croché e a minha mãe começou-se um entremeio para um lençol para continuar durante a prova. Quando chegou a hora, estava muito calor e eu devia estar tão nervosa, que foi um desastre! Transpirei tanto que até a linha custava a correr e ficou tudo molhado. 
A Prova Oral correu bem. Recordo-me que a minha mãe foi assistir e quando acabei, vim ao pé dela perguntar "se tinha dito tudo bem". 
Ainda nesse tempo o programa era muito extenso. Tínhamos que aprender tudo sobre Portugal Continental, Insular e ainda sobre as antigas Províncias Ultramarinas. Saber os rios e afluentes, as serras, as linhas de caminho de ferro... sei lá, montes de coisas.
Ainda hoje me pergunto, como conseguíamos aprender tanta coisa? E as tabuadas? Aprendíamos e retínhamos a aprendizagem para o resto da vida.
Em relação às tabuadas e pela minha experiência profissional, nunca entendi a razão pela qual as crianças de hoje esquecem as tabuadas, depois de as terem decorado. Não falando daquelas que nem chegam a decorá-las... 

D. Preciosa Louzeiro tem 89 anos e encontra-se no Lar de Colos


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Seguir Viagem


Há muito tempo que evito pensar no futuro, pelo menos para além do futuro próximo.
Antes não o fazia, porque tinha medo. A ideia de estar só e ainda mais de me sentir só, enchia-me de pavor e eu esforçava-me por afastar esses pensamentos.
Hoje recuso-me a pensar nesse futuro distante e fico-me por um futuro a médio prazo.
Já não o faço pelo pânico de antes, faço-o porque me recuso a gastar energias a programar situações que nem sei se vão concretizar-se.
Hoje faço tudo para serenar o espírito e aproveitar um dia de cada vez, ou se possível cada momento. Procuro serenar o coração, sentir e desfrutar do que a vida ainda tem para me oferecer.
Hoje continuo a seguir caminho, sem andar à procura de nada em especial! Deixo-me levar pela corrente do rio do tempo. Não faço esforço para virar o leme, porque não quero escolher direção. Deixo-me levar simplesmente, neste bote que segue tranquilo, sem pressas nem direção predefinida, apenas orientado pela sabedoria que me vem da essência da alma.
Estou a aprender a conhecer-me, a perdoar as minhas fraquezas e erros, a aceitar-me como sou e a gostar de mim. Claro que me esforço por evoluir, aperfeiçoando-me naquilo em que posso melhorar.
Assim sigo a minha viagem, bebendo da fonte das recordações quando a saudade daquilo que já tive e já perdi, bate com mais força. Nesses momentos deito a mão a papéis amarelecidos pelo tempo e sacio a minha sede e quando nem assim o coração se acalma, saio e mergulho o olhar no céu ou no mar, caminho pelo campo ou enterro as mãos na terra e a serenidade acaba por chegar.