quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Atividades no Centro de Dia

A tarde de ontem foi passada no Centro de Dia! 
Fizemos um Concurso de Provérbios Populares, no qual participaram 10 elementos dos quais um era do sexo masculino, o que dificilmente se consegue. Foi animado e os resultados foram ótimos, porque houve quem não errasse nem um provérbio! A dificuldade está sempre em cada um responder na sua vez... Eu bem digo que quem falhar esta regra, perde pontos, mas... nem elas se aguentam, nem eu tenho coragem. Afinal os objetivos são a distração e pôr a mente a trabalhar.
Depois ouviram alguns versinhos que tinha gravado em Colos e contei o que lá tinha feito, porque estão sempre curiosos. De seguida também algumas das "meninas" disseram alguns versinhos que também gravei, para mostrar em Colos.
Li também dois contos tradicionais e realizámos exercícios de memorização da legalenga: copo, copo, gericopo... e repetiram poesias e outras lengalengas que já tínhamos trabalhado.
Conversámos  sobre a escola de antigamente e os relatos foram semelhantes, só que os alunos do Cercal iam fazer o exame da 4ª classe a Santiago do Cacém e também iam em carro de parelha e ficavam ou numa pensão, ou em casa de familiares. 
De seguida fiz uma recolha e atualização dos dados pessoais e fotografei toda a gente, porque estou a organizar um cartão para oferecer aos participantes nas atividades de voluntariado. 
No final pedi algumas sugestões de trabalhos em papel, para decoração de um espaço no Lar de Colos. Tive logo três voluntárias para me ensinarem a fazer o que elas chamam rosetas e até almofadas. No próximo dia vou aprender e depois deixo aqui as indicações e as fotos.


Versos -Centro de Dia

Eu nasci no Mal Batido
e o meu nome é Vitalina
O meu pai Manuel Inácio
e minha mãe Maria Balbina



Venho da Ribeira Nova
fui regar o laranjal
já cá trago uma folhinha
no laço do avental.

No laço do avental
na barra do meu vestido
rico amor, vais pra guerra
deixa-me ir junto contigo.


(D. Vitalina com 82  anos de idade)


O meu amor amuou-se
foi às amoras ao mato
anda cá meu amuado
que já d'amoras vens farto.

(D. Marcelina Guerreiro com 86 anos de idade)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Atividades em Colos

Ontem foi dia de ir ao Lar de Colos! 
Como já estou recuperada do meu pequeno acidente, já consegui realizar o momento de Atividade Física. Depois de duas semanas sem esta atividade, já verifiquei algum cansaço e tive que aligeirar os exercícios. 
Ao longo da tarde li-lhes duas histórias "A Fé é que nos Salva" e "O Criado Pedro", da obra "Contos Tradicionais Portugueses" de Ana Castro Osório. Estas leituras foram como sempre alternadas entre a memorização de algumas poesias e lengalengas e algumas canções. Ontem cantámos 2 canções antigas: "Oh Mulher" e "José Aperta o Laço". As atividades de memorização realizam-se coletivamente e depois incentivo  a que o façam  individualmente, ajudando quem mostrar dificuldade. É divertido, porque elas não se importam com os enganos e até acham graça. 
Também lhes recitei alguns versos das "meninas" do Cercal e elas ensinaram-me outros para eu recitar no Centro de Dia. 
Fiz então a recolha de alguns versos sobre a vila de Colos, uns que já conheciam e outros que foram criados no momento. 
O tema que escolheram para conversarmos, foi os seus tempos de escola, apesar de apenas 3 delas terem frequentado a escola. 
A D. Engrácia contou que apenas entrou na escola aos oito anos. Embora a professora tivesse mandado recado à mãe, para a mandar aos sete, esta não deixou, porque não  a queria mandar para a escola descalça e não lhe podia comprar sapatos. Aos oito anos entrou então na escola, com umas chinelas feitas no sapateiro. 
Escreviam no quadro, onde aprendiam as letras e os números, tinham uma pedra para escrever e só faziam algumas coisas no caderno, onde escreviam com caneta de aparo, que molhavam num tinteiro com tinta. Depois usavam o mata-borrão, para a tinta secar e não sujar o caderno. 
A D. Engrácia diz que era uma boa aluna e passou todos os anos. Andou até à quarta classe, mas não fez exame, porque nessa altura tinham que ir a Odemira e ficava muito dispendioso. Era a viagem em carro de parelha e a pensão onde tinham que ficar entre a prova escrita e a prova oral. 
Embora a professora tivesse mandado recado à mãe a dizer que era pena ela não ir a exame, porque estava bem preparada, não foi possível.
 
D. Engrácia, de 86 anos e natural de Vale de Santiago

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Versinhos da D. Idália

Os Meus Versos
Fiz versos em pequenina
muitas vezes sem pensar
se isto for a minha sina
eu não a posso mudar.

Eu fiz versos em solteira
e fiz versos já casada
faço de toda a maneira
faço versos reformada.

Fiz versos, estava cantando
e agora faço a chorar
porque  a vida está passando
e o tempo está-se a acabar. 

A D. Idália tem 79 anos e encontra-se no Lar de Colos

Versinhos da D. Maria Inácia

O Meu Quintal

Semeei no meu quintal
as sementes de um repolho
nasceu um velho careca
com uma batata num olho.

Semeei no meu quintal
as sementes de ervas doces
nasceu uma burra velha
respingando e dando coices.

Tenho lá no meu quintal
um gato com trinta patas
dentro da casca de um ovo
comendo arroz com batatas. 



A D. Maria Inácia tem 83 anos e encontra-se no Lar de Colos

domingo, 9 de setembro de 2012

O Dia Em Que Eu Não Queria Chorar

Mesmo durante os anos em que adormecia e acordava a chorar, sempre houve um dia em cada ano, em que eu trancava a torneira das lágrimas. Pelo menos um dia em que me recusava a sofrer. Pelo menos um dia, em que arregaçando as mangas da coragem, mergulhando por inteiro nas memórias que guardava no coração e embrenhando-me pelo mundo do sonho e da fantasia, eu queria que fosse um dia sem dor.
Esse dia era hoje!
Dia que representava a conquista de finalmente podermos segurar as rédeas das nossas vidas. Dia em que todos os que nos cercavam ficaram pequenos, porque os nossos olhos, quase não nos bastavam para nos olharmos. Dia em que os nossos corações, mal se aguentavam com tanta emoção!
Era o Nosso Dia! Tão desejado! Tão ansiosamente aguardado!
Enfim chegara, para nos libertar de tábus, de falsas verdades, de falsos deveres.
Dia Feliz! Dia de cortar amarras e seguir de mãos dadas pelos caminhos que a vida nos oferecesse! Dia de Liberdade! 
Por tudo isto, eu não queria chorar, mesmo tendo ficado forçada a caminhar sem a tua presença física! Como podia chorar numa data que representava alegria e felicidade?
Naqueles anos em que as lágrimas eram as minhas inseparáveis companheiras, eu mergulhava a fundo num mundo imaginário e ficava à tua espera. Sabia que virias, tinha a certeza que, da forma que te ficou possível não deixarias de estar comigo, para como sempre comemorarmos juntos o Nosso Dia  e fazermos a nossa Festa, a Nossa Festa do Amor!
Hoje tanto tempo já passado, apelo a todas as minhas forças, para também suster as lágrimas e fico a imaginar como seria ter-te aqui por inteiro. Não preciso fazer muito esforço, porque sei que iríamos falar do que sempre falávamos e iríamos dar-nos, como sempre nos dávamos. E recontaríamos um ao outro como o amor nasceu nos nossos corações, mesmo antes de nos vermos e de nos tocarmos. E tu voltarias a abençoar a guerra onde foste forçado a combater, porque sem ela nunca teríamos sabido da existência um do outro. Voltaríamos a questionarmo-nos que sentimento tão sublime era aquele, que além de não terminar, cada vez parecia ficar mais forte, mais maduro. E tu, com o olhar iluminado pelo brilho da emoção, tornarias a dizer-me que tinha sido a tua boa estrela que te tinha encaminhado até mim e eu acabaria como sempre a chorar emocionada nos teus braços.
Seria assim, se tu estivesses hoje aqui comigo fisicamente!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Vencer a Dor da Ingratidão

 Pode haver quem lide bem com a ingratidão! Pode ser que não lhe abra no peito aquela chaga que dói e que faz abrir a fonte das lágrimas. Pode ser que em vez da tristeza, lhe cresça a raiva e consiga barafustar e não se deixe enredar pela angústia. E que fale tudo, que não deixe nada para dizer! Que se liberte, que não se angustie! Pode ser que haja pessoas assim. 
Mas eu não, não consigo dizer nada, o meu cérebro pára e o coração vai recebendo todas as palavras, todas as atitudes, todas as bofetadas sem mãos, mas que queimam mais a alma do que se fossem reais, me queimariam o rosto. 
Para segurar a angústia que se apodera do meu peito, fecho os olhos e medito, tentando ouvir o silêncio e tentando olhar dentro de mim, espreitando uma a uma as emoções que me fustigam. E como dificilmente se consegue por muito tempo ficar com o pensamento vazio, vou observando momentos antigos, de dores gémeas desta que sinto hoje e concluo que tenho que aprender a vencer a dor da ingratidão.
Então tento entrar no fundo da minha alma e aí busco a sabedoria que as leituras recentes me ajudaram a interiorizar e com toda a coragem, decido pôr em prática todas essas estratégias, todos os ensinamentos.
Medito, concentrando-me no meu interior profundo e quando abro os olhos, procuro ficar no "Agora", observando cada elemento que me rodeia, ouvindo cada som, sentindo cada aroma, vendo cada pessoa que por mim passa, olhando o céu e as aves que nele esvoaçam,respirando fundo, bem fundo... e abro-me à beleza da vida!
 A pouco e pouco, sinto o aperto do peito a dar lugar a uma leveza e sinto que de dentro me chega um sentimento estranho, um misto de alegria e felicidade. Quando vou observar o cantinho das emoções, também deixo de lá encontrar a angústia e a ansiedade e sinto que em todo esse espaço, reina uma doce paz. Depois observo o pensamento e se ele ainda se mantiver tagarela, eu com calma digo-lhe: obrigada por me quereres proteger dessa pessoa que me magoou, mas deixa lá, ela é assim, não sabe fazer melhor e eu não a posso julgar. Tenho que lhe perdoar e talvez libertá-la de vez da minha vida e com amor deixá-la partir, sem mágoas e sem raiva. Simplesmente em Paz! Enquanto isso, entretenho o pensamento a descobrir algo de positivo a retirar desta experiência de vida.