quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Lembranças das Idas à Praia

Ontem no Centro de Dia, eu e as "minhas meninas", estivemos a falar também nas idas à praia do tempo da sua juventude. Pedi que elas se lembrassem de coisas engraçadas, de peripécias que tivessem acontecido. 
A D. Maria Antónia contou que a primeira vez que viu o mar tinha por volta dos seus 15anos, mas viu de longe. Foi num carro de besta, que ia cheio e foram ver uma avioneta que tinha caído em Milfontes. Nem chegou a molhar os pés. 
Mais tarde, já casada, esta amiga foi então ao banho do 29, no Porto Côvo, com outras pessoas. Iam todos de burro e na comitiva ia um carro de besta (do Zé Cuco), que levava os sacos com a comida de toda a gente. Todos levavam roupa normal e tanto homens como mulheres só molhavam os pés, eles arregaçando as calças e elas as saias.
A D. Custódia contou-nos que quando estava a "servir", esteve 15 dias no Porto Côvo. Só ia à praia com os patrões, para os servir e nem molhava os pés. Até as patroas só iam "receber o ar do mar", porque de tarde iam para os "banhos quentes", que havia no Porto Côvo.
Vou ter que pesquisar sobre isto, mas pelo que a D. Custódia me contou, parece-me que eram banhos que faziam em banheiras, com água do mar aquecida, mas não tenho a certeza. 
Depois de casada esta senhora diz que costumava alugar um quarto no Porto Côvo e aí já ia para a praia com a família e apenas molhava os pés, puxando a saia para cima. 
A D. Maria Emília, contou-nos que a primeira vez que viu o mar, foi também no Porto Côvo, onde foi ao banho do 29. Foi com outras pessoas a pé, da Ribeira do Seissal ao Porto Côvo. Apenas molhou os pés. Depois ficaram lá na noite, para irem ao baile e dormiram debaixo das árvores. 
Anos mais tarde, já casada, foi à praia da Ilha do Pessegueiro num carro de parelha com 2 burros, enfeitado com canas colocadas em arco, para poderem pôr um toldo. Conta que no caminho, um dos burros escorregou e claro, ficaram os dois estendidos. Tiveram que sair todos do carro e diz a nossa amiga, que foi uma "carga de trabalhos", para pôr tudo em condições de seguirem viagem. Mas no meio daquela trapalhada, foi uma grande animação. Deve ter sido mesmo, porque só de relatar este acontecimento, a D.  Emília se divertiu imenso, bem como todas nós que estávamos a ouvir. 
A D. Vitalina disse que viu o mar devia ter uns vinte anos aproximadamente. Como estava a "servir" em casa de uns senhores que tinham uma casa no Porto Côvo, foi caiar a casa e de lá via o mar. Diz que ficou muito admirada de ver assim tanta água. Contou-nos que ia buscar água doce a uma fonte, em que a água jorrava de um buraco e ela tirava-a com uma tigela.
Durante o tempo que estavam na praia costumavam apanhar caramujos(caracóis do mar), lapas, mexilhões...)
Recordo-me de a minha mãe contar de uma ida à praia a Milfontes, também em carro de parelha, em que no regresso, se partiu, ou saltou uma roda. O carro tombou e a minha mãe dizia que só ela tinha ficado lá em cima, as outras raparigas tinham caído, mas ninguém se aleijou. Depois tiveram que vir a pé o resto do caminho e chegaram a casa já de noite, mas no meio de grande risada, porque naquela altura era tudo gente animada.
Vou publicar uma foto que talvez seja também da minha primeira ida à praia, portanto deve ter uns cinquenta anos, pelo menos. Fui na "camioneta da carreira" com os meus pais e lá estivemos com um casal conhecido que tinha duas crianças. Como podem ver, estava tudo muito vestidinho, o que leva a crer que se alguma coisa foi molhada, também teriam sido apenas os pés. Já agora, eu sou a menina de chapeuzinho.  A Praia era a do Farol.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Versos de D. Maria Emília Sobral

A Nossa Santa da Bica
É bonita como o amor
venham cá ver as nossas festas
Ela vem sempre no andor.



És uma ginja na côr
um girassol a brilhar
um cravo na primavera
e um amor-perfeito de amar!



Oh primavera da Índia
és um damasco em botão
na praia desse teu peito
navega o meu coração.



No tempo tudo me lembra
lembra-me agora ameixas.
Diz-me lá oh meu amor
a razão por que me deixas?

Se o Sol deixar de dar
a sombra no alto freixo
é então quando te digo
a razão por que te deixo!



Adeus oh vila de Colos
já te não chamam aldeia
chamam-te a nova cidade
onde o meu amor passeia.

Onde o meu amor passeia 
e anda sempre a passear
já te não chamam aldeia
chamam-te a nova cidade.



Menina que sabe ler
faça-me lá esta conta
quatrocentos guardanapos
seis vinténs em cada ponta.

Essa conta já eu fiz
em cima do meu balcão
quatrocentos guardanapos
oitenta moedas são! 


(A D. Maria Emília tem 90anos de idade e adora dizer versinhos! )

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Atividades de Voluntariado

Ontem voltei ao voluntariado, após quase 2 semanas de pausa forçada!
De manhã dei apoio à ginástica no Centro de Dia do Cercal. Agora já não posso falar de "meninas", porque finalmente temos um homem a participar nas atividades. Então estes "meninos" estão cada vez mais em forma! Hoje foi o dia de atividades com bastões. Ninguém reclama, ninguém diz que está cansado e quando se pára um pouco para conversar, podem não acreditar, mas há lá umas" meninas" que nem gostam de pausas. Depois do aquecimento, caminham ao longo da sala, realizam já diversos exercícios de pé e depois outros sentados.
Nota-se de semana para semana uma maior agilidade, maior capacidade de equilíbrio, melhor capacidade para realizar determinados movimentos em que de início ou manifestavam grande dificuldade ou nem conseguiam realizar e claro está uma maior resistência, que lhes permite a repetição dos vários exercícios.

De tarde, dirigi-me ao Lar de Colos, onde encontrei as "minhas meninas" também cheias de saudades. Disseram-me que tinham estado a falar, se eu iria ou não e a maioria apostou que sim. 
Tal como lhes tinha prometido, levei o computador para lhes mostrar as fotografias que tenho ido tirando quando lá vou. 
Seguidamente conversámos sobre as idas à praia, no tempo da sua juventude e elas foram-me contando as suas lembranças, no meio de risota e animação. 
Depois propus-lhes a leitura de um conto do livro "Contos Tradicionais Portugueses" de Ana de Castro Osório. Escolhi "O Príncipe das Maçãs de Oiro", um conto cheio de magia e aventura, de que elas gostaram muito. Engraçado, porque elas vivem a história e quase se zangam quando acontece algo de mal ao "bom" e por vezes até libertam algum desabafo, quando as coisas não correm da melhor maneira e quando os "maus" se tramam, elas riem, batem palmas e fazem comentários, do género- bem feito... Muito interessante! Adoro e emociono-me.
A seguir veio o momento das cantigas, de que elas tanto gostam. Costumamos gravar, para ouvir depois e aí há sempre risota. Após o lanche li-lhes umas anedotas engraçadas e combinámos algumas coisas para irem pensando, para falarmos na próxima semana. 


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A Praia de Antigamente

Nos tempo de juventude das "minhas meninas", não se ia à praia assim como hoje. 
Em Colos, a maioria apenas viu o mar já depois dos vinte anos e muitas só depois de casadas. Algumas foram em solteiras, com amigas e familiares, ou com os senhores das casas onde estavam a "servir". Uma delas conta que ia para a praia com farda e avental branco, para cuidar da menina dos patrões.
Costumavam ir em carro de parelha (puxado por 2 mulas), que no caso das famílias mais abastadas, tinha um toldo, para proteger do sol. Outras iam de carroça (só com uma besta), uma foi de burro e outra de carreta de bois. Só uma delas contou ter ido de automóvel, porque o irmão tinha um taxi.
Quase todas têm em comum a primeira praia onde foram e também a data: a praia de Porto Côvo, ao banho do 29. 
Em alguns casos, saíam muito cedo, ainda quase de noite e passavam lá o dia. Havia quem passasse uma parte do dia na praia e outra parte a dançar nos bailes.
Mais tarde, passaram a ir em excursões, que habitualmente eram feitas no dia 29 de agosto. 
O vestuário era o normal para a maioria e apenas molhavam os pés, levantando as saias ou os vestidos. Algumas despiam os vestidos e iam para a água em combinação, mas era pouco frequente. Também só dois casos referiram ter roupa adequada para usar na praia: uma saia de alças, com uns calções com perna e um caso que afirma usar um fato de banho, feito por uma familiar, que tinha  botões à frente e tinha perna até aos joelhos.
Para o farnel, a maioria não levava nada de especial, além de pão e alguns condutos.
Contaram-me que muitos homens, apenas arregaçavam as calças para molharem os pés, mas também havia quem despisse as calças e tomasse banho em ceroulas.


domingo, 2 de setembro de 2012

Meu Porto Seguro



 És e serás para sempre o meu Porto Seguro, onde me refugiarei das investidas cruéis da vida. Será em ti que buscarei alento nas horas de maior dor e tristeza.
Quando me faltarem carinhos e abraços, buscá-los-ei nas lembranças que guardo daqueles que estavas sempre pronto para me dar.
À medida que vir desfeitos os sonhos que ouso sonhar hoje, sei que encontrarei em ti a  capacidade de sonhar com outros, que contava tornar reais a teu lado e que mesmo sem os ter vivido, os vislumbro como realizados.
Será para todo o sempre em ti que curarei todas as feridas, as presentes e as futuras, sentindo de uma forma intensa este amor espiritual que hoje te dedico, que continua a iluminar-me o olhar e a adoçar-me  a vida.
És e serás para sempre o meu Porto Seguro, aquele que tempestade alguma poderá derrubar. Aquele que jamais me será roubado. Aquele que força alguma me poderá levar, porque esta forma que me ficou de ti e que eu guardo no altar-mor do meu coração, será eterna. Desta forma posso ter-te sempre que queira e da forma que mais precisar no momento.
Quando me sentir fraca  e desamparada, buscarei em ti a força, a proteção e o alento para seguir nesta dimensão, dia  a dia, escalando com energia esta montanha agreste e penosa em que se tornou  a  vida, sem te ter a meu lado.
Para  escalada tão árdua, conto e contarei sempre contigo, meu querido, meu amigo do Céu, meu Porto de Abrigo. Será sempre sob tua proteção que ousarei descansar quando as maiores canseiras ameaçarem vencer-me. Será em ti que secarei as lágrimas de todas as desilusões que for encontrando pelos caminhos tortuosos que fiquei forçada a percorrer sozinha.
Será abrigada a ti que absorverei  a poção da força  e da coragem para seguir esta jornada tantas vezes sem esperança e sem propósitos.
Para todas estas tão árduas tarefas, conto contigo, meu Porto Seguro. 
(texto escrito em fevereiro de 2009)

sábado, 1 de setembro de 2012

O Mar


Há muito que tenho uma relação especial com o Mar. Noutros tempos, quando as forças ameaçavam faltar-me, tinha umas mãos que me levavam até ele  e eu deixava-me levar, muitas vezes quase sem disso me dar conta.
Quando lá chegávamos, as palavras ficavam esquecidas! Restavam as mãos, os braços e o Mar, e o silêncio que ficava para além do som das suas vagas, do murmúrio com o qual falava comigo, contagiando-me com o seu vigor e sacudindo o ar, que por sua vez me abanava, obrigando-me a sair do torpor no qual mergulhara. Eu olhava-o e à medida que o seu aroma me ia penetrando corpo a dentro, a respiração ficava mais tranquila e eu serenava e estava pronta para voltar às lutas de antes.
Quando perdi as mãos que sempre me conduziam ao mar, fiquei muito tempo sem o querer ver, talvez mais, sem o poder ver.
Um dia rebusquei dentro de mim os resquícios de coragem que ainda aí subsistiam e fui, fui ter com ele, com o Mar! Fui sozinha e quando o consegui encarar, mesmo de longe, apenas uma frase aflorou os meus lábios, frase essa que lhe repeti vezes sem conta: Porquê? 
O seu aroma foi anestesiando a minha dor, as suas ondas pareceram-me ficar mais suaves e ele falou-me. E respondeu-me dizendo-me que  a vida era como as suas marés, que levam umas coisas e trazem outras. Que raramente trazem aquilo que levam e quando trazem, já nada é igual. Ele contou-me que muitas das coisas que leva, vão ter a outras praias e outras vão até ao fundo e ficam lá eternamente. 
Assim são aqueles que partem das nossas vidas, uns partem para outros braços, para outras paragens, mas outros têm um caminho mais longo a percorrer, aquele que os leva para o outro lado da vida.
Hoje o Mar é o meu amigo, o meu confidente, o meu anestésico, o meu bálsamo e até posso dizer que ele representa o meu elixir da vida. 
Quando a amargura, a ansiedade e a angústia me tomam de assalto, eu corro para ele e se começo a fazer-lhe a pergunta antiga, a tal dos porquês, ele volta a dar-me também a resposta antiga, a tal das marés.


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Saudades das "Minhas Meninas"

Devido a um pequeno acidente, que me deixou impossibilitada de sair de casa, não tenho podido deslocar-me a nenhum dos dois locais onde faço voluntariado.
Tenho saudades! E também julgo que "as minhas meninas" devem estar preocupadas, achando que pode ser mais grave do que realmente é. 
Ultimamente durante as nossas conversas, tenho estado a fazer alguma recolha sobre hábitos e costumes do tempo da sua mocidade: como se divertiam, as raras idas à praia, os trabalhos que realizavam, o vestuário e calçado, os namoros, os casamentos... 
Tenho já alguma informação sobre alguns destes temas, mas ainda preciso de mais umas conversinhas, para que possa apresentar um testemunho, o mais genuíno possível dos mesmos. 
Também gostava de arranjar algumas fotografias antigas...
Espero bem poder regressar até ao fim da próxima semana a estas minhas atividades.