quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Quando Partiste



Quando partiste levaste contigo parte da minha alma, que acredito te quis acompanhar nessa viagem que não querias fazer.
Deste lado da vida, ficou-me a pele que cobria um corpo descarnado, por força do sofrimento que antecedeu a tua partida e da dor do tempo que lhe seguiu.
Por dentro só sentia que não ficara oca, pela dor penetrante que sentia e que parecia querer consumir o pouco que restava de mim.
E era esse resto que por ser tão pouco e tão insignificante, me mortificava tratar. Doía lavar e doía cobrir. Era como se a água ao cair sobre ele o rasgasse e pusesse a nu a ferida desmedida que sentia no peito e que gorgolejava dor, angustia, tristeza, saudade, mágoa e revolta.
Cada adormecer avivava em mim a esperança de estar a terminar tamanho suplício e cada despertar reacendia a dor por ter que suportar nem que fosse mais um dia nesta dimensão que eu tinha urgência em deixar.
Assim qualquer coisa servia para tapar aquele corpo que eu não sentia, que ficara num mundo de onde eu, se pudesse partiria. Cobri-lo estava à mercê do que a mão alcançasse ao abrir da primeira porta ou da primeira gaveta.
E os dias foram correndo e os meses e até os anos.
A pouco e pouco o corpo foi ganhando a forma de antes, mas a dor que vinha de dentro, essa mostrava que a ferida se mantinha, surgindo porém de tempos a tempos momentos de bonança que abriam em mim a ilusão fugaz de que havia iniciado o caminho da cura.
Sem me dar conta, comecei a abrir mais que uma porta, ou mais do que uma gaveta para o cobrir e o contacto com a água passou o ter o efeito purificador e catalisador que lavava as minhas mágoas, que aliviava a minha dor e que trazia alguma paz ao meu coração. Assim foi-me trazendo a esperança de que o tempo será o único remédio que me poderá conduzir de novo à vida, não àquela que tinha antes de partires, mas a que me ficou por inventar, por descobrir, de forma que o tempo que me resta aqui, deste lado da vida, me traga paz e algum prazer.

(Texto escrito em maio de 2008)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Versos e Lembranças de D. Luísa Fernandes

Despedida
Despedida, despedida
Como eu fiz e vou fazer
Boa tarde minhas senhoras
E meninas, até mais ver.

Despedida, despedida
Sabe Deus quem se despede.
Quem se despede cantando,
Tem a despedida alegre!

 
Canção
Oh Rita arredonda a saia
Oh Rita arredonda bem
Depois da saia rodada
Em qualquer mulher está bem!

Em qualquer mulher está bem
Seja alta ou baixinha
Oh Rita arredonda a saia
Redondinha, redondinha.

Redondinha, redondinha,
redondinha aos caracóis,
esta é que é a moda nova
que trouxeram os espanhóis.

Que trouxeram os espanhóis
Que trouxeram os franceses.
Esta é que é a moda nova
Dos soldados portugueses!

Minha Fala
Minha fala, minha fala
Minha fala não é esta
A minha fala era boa
E esta agora não presta! 

À frente da minha porta

À frente da minha porta
Andam as penas voando
Todas saem do meu peito
E eu disfarço cantando.
Esta é uma carinhosa homenagem a D. Luísa Fernandes, que infelizmente já não está entre nós. Na altura da recolha esta senhora tinha 93anos. 

Frutos da Minha Árvore

Há muitos anos plantei uma árvore! Não a plantei sozinha, tive a ajudar-me outras mãos, outros braços e outro coração. Esta minha árvore, ou devo dizer nossa árvore, foi plantada a dois. E a dois foi tratada e a dois foi regada e muito cuidada, como se de um tesouro se tratasse. 
De vez em quando, algum esquecia-se de a regar, mas o outro sempre se lembrava e por isso ela cresceu forte e saudável, enriquecida pelos sentimentos e emoções que partilhávamos enquanto dela cuidávamos. A poção mágica com que a alimentávamos era uma mistura de carinho, de ternura, de amizade, de respeito, de tolerância, de companheirismo, de amor e paixão. 
Logo que  as suas raízes ficaram bem presas à terra, começámos a sonhar com o seu primeiro fruto e cheios de emoção e ternura, esperávamos ansiosamente o momento em que brotasse a primeira flor. 
Um dia ela desabrochou e os risos misturaram-se com as lágrimas! A alegria, a felicidade e a emoção falaram mais alto! 
Depois a flor virou fruto e quando ficou completo, podemos vê-lo por inteiro, podemos tocá-lo e cheirá-lo. Quanta emoção! Um fruto feito de nós! O primeiro, gerado pela nossa árvore do amor! Lindo, tão lindo! Um fruto que se via, ia ser forte e queria ganhar o mundo, aquele mundo que nos faz falta, o mundo dos sonhos, dos afetos, do amor, da alegria e da felicidade!
Anos mais tarde, apanhados desprevenidos a nossa árvore presenteou-nos de novo! Não demos pelo desabrochar da flor e quando nos apercebemos o fruto já vingara! Quando soubemos que a nossa árvore estava de novo a frutificar, a emoção não foi menor! A força que nos cresceu no peito, fazia-nos tanta falta no momento! Dependíamos dela para alimentar a nossa árvore e para nos alimentar a nós, que nos encontrávamos vergados pelas agruras da vida. 
Por isto este fruto foi especial!
 E como o outro cresceu, ficou completo e ganhou vida nos nossos braços, para ser guiado pelas nossas mãos e aprender a conhecer as riquezas da vida, pela cartilha dos nossos corações. 
Há muito que os meus dois frutos se soltaram da minha árvore, de que também há muito cuido sozinha. Enche-me de felicidade vê-los a criar ou a planear criar a sua própria árvore que desejo seja robusta e linda como a que lhes deu vida. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Versos da D. Beatriz Oliveira

Não tenho quem me domine
Estou na minha liberdade
Enquanto tiver juízo
Deixem-me andar à vontade!

Eu não tenho por quem mande
O meu bem é uma lembrança
Mandarei no meu sentido
Já a cabeça não alcança

Não cuides que só me lembro
Quando te vejo a meu lado
As saudades de longe
É que me têm matado!

Quando eu me assomo à porta
Lanço os olhos à verdura
Vejo bandear a erva
Meu amor se me afigura

Ora viva, para que viva
Quem agora aqui chegou
Eu estava para me ir embora
Agora já me não vou!

Não há luz que mate o sono
Nem flor como a urtiga
O meu gosto é ver-te sempre
Ainda que eu nada te diga!

Os beijos do pai são doces
E os da mãe mais doces são
Os beijos da minha amiga
Não têm comparação!

Oh meu amor, se eu pudesse
A toda a hora te estar vendo
Não vejo mas estou pensando
Sempre me estás entretendo!

Oh meu amor se eu pudesse
Falar contigo uma hora
Vejo que não pode ser
A alma do meu peito chora!

Estes versos foram recolhidos quando a D. Beatriz (à direita) tinha 96 anos. Esta senhora ficou impossibilitada de frequentar o Centro de Dia, após uma queda.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ultrapassar a Dor da Perda



Quando alguém que muito amamos parte para o outro lado da vida, somos forçados a entrar na maior guerra em que algum dia julgámos vir a combater. Esta guerra é feita de tantas batalhas que nunca poderemos saber se alguma vez irá ser declarada a paz. 
Hoje sei que a paz um dia acaba por chegar, mas durante anos, duvidei que isso um dia fosse acontecer. É uma guerra longa, que quase nos destrói o corpo e a alma. Uma guerra que só suportamos porque num instinto de mera sobrevivência, inventamos formas que nos permitem descansar pelo tempo indispensável a continuarmos a viver, embora uma vida fictícia. Agarramo-nos a algo que nos faça esquecer, enchemos a vida de tal forma que quando a noite chega o cansaço do corpo nos deixe de tal modo extenuados que o sono chegue depressa e que o tempo para chorar fique reduzido.  Também podemos entrar num mundo visionário, no qual nos parece que aquele que partiu e que continuamos a amar, está algures mas pode voltar a qualquer momento, ou está perto, mesmo ali a nosso lado, só que de uma forma que apenas ficou invisível aos olhos do corpo; ou então que está à nossa espera do outro lado da vida e apenas temos que ter paciência e saber esperar o momento de voltarmos a ficar juntos e desta vez para sempre. Qualquer destes estádios funcionam como um bálsamo que nos dá força para resistir aos outros muitos momentos em que somos atingidos por uma lucidez dolorosa, que nos rasga as entranhas e quase nos derruba por completo. Estes momentos de doce loucura, em que inventamos aquilo que nos protege, que nos defende do fim, por incrível que pareça, trazem-nos até uma estranha forma de felicidade, em que a solidão quase desaparece e a saudade amaina. Muitas vezes chamei-a de santa loucura, de abençoada loucura!
Enquanto vagueamos entre os vários estádios, o tempo vai passando, vamos sobrevivendo, mas não caminhamos, continuamos parados no mesmo sítio, alternando apenas entre o fundo e o bucal do poço no qual caímos. À medida que o tempo avança, os períodos de lucidez tornam-se demasiado frequentes, deixando-nos cada vez mais frágeis e com menos força para enveredar pelo mundo da fantasia. Acentua-se a busca de culpados, em que nos martirizamos por nos culparmos do que poderíamos ter feito e não fizemos, do que deixámos de viver com a pessoa amada. No meu caso a isto juntou-se a facto de o culpabilizar a ele pela doença que provocou a sua partida e por me ter deixado aqui. E vem a revolta e os porquês e a raiva com tudo o que nos rodeia e com aqueles que nos cercam, que nos dizem palavras que estamos cansados de ouvir, que nos falam em tempo que não é o nosso e nos indicam curas milagrosas em que não acreditamos.
Quando deixei de conseguir encontrar o mundo da ilusão e deixei de conseguir emergir ao bucal do poço e porque sabia que o meu tempo de sobrevivência estava a esgotar-se, aceitei buscar ajuda, não que esperasse alcançá-la, mas para apaziguar o coração àqueles que vieram de mim e por ele, que temia estivesse a ver-me e o meu sofrimento o impedisse de alcançar a paz. A procura de ajuda foi um gesto de amor! Amor por eles, não por mim!
Assim iniciei um ciclo de psicoterapia e assim me perdoei, lhe perdoei, aceitei a sua partida e aprendi a apreciar os bons momentos que vivemos lado a lado. Assim reaprendi a olhar ao espelho e a ver-me, bem como a dar-me conta daquilo que me rodeia e a querer-me viva pelos que me ficaram, por aqueles que hão-de vir e também por mim mesma.
Assim regressei à vida!

Voluntariado no Lar de Colos

Há já algum tempo que a ideia de alargar a minha atividade de voluntariado a um Lar de Idosos vinha a amadurecer na minha cabeça. 
Um dia vi na televisão uma reportagem sobre o envelhecimento da população portuguesa, parte da qual foi realizada no Lar de Colos, que dista pouco mais de 20Km do Cercal. Achei o sítio ideal, porque fiquei rendida à doçura de algumas velhotas (uso este termo com muito carinho e não de forma depreciativa porque não gosto do termo utentes) que falaram na reportagem e entendi que não havia lá ninguém  a realizar este tipo de "trabalho". 
Algum tempo depois contactei a Instituição e apresentei a minha proposta à Santa Casa da Misericórdia de Odemira, que a aceitou e abriu as portas ao meu projeto.
Então desde o dia 9 de julho que me desloco a esta Instituição, uma tarde por semana. 
Neste período realizo diversas atividades que vou alternando ao longo da tarde. Dei início a um período de atividade física, com a orientação da professora de ginástica do Centro de Dia do Cercal e recorrendo à experiência que tenho de colaborar com ela já há mais de 1 ano. Iniciei esta atividade com algum receio de não ser bem aceite, mas pelo contrário, está a ter muito sucesso por parte das "meninas". Os "meninos" é que não têm aderido muito, o que lamento. Mas aqui só para nós, que as "meninas" não nos ouvem, sabem que elas não gostam muito de os ver por perto? Quando eu digo que os vou chamar, há sempre uma que diz que eles não querem, que a sala já está cheia e coisas do género... :) Que fazer? :)
Além da atividade física, desenvolvo um conjunto de atividades semelhante às do Centro de Dia: leitura e reconto de contos populares portugueses, lendas, provérbios populares, adivinhas, cantigas alentejanas... As minhas "meninas" gostam muito de cantar! Também são muito participativas e entre as minhas histórias, adivinhas... elas lembram-se de coisas que também me contam. Falamos também de como se vivia antigamente e elas contam-me com muita alegria coisas da sua mocidade.
 À medida que vá organizando essa recolha de material, dar-vos-ei conhecimento do mesmo.