sábado, 25 de agosto de 2012

A Roseira e o Sol



Era apenas uma roseira! A mais frágil do imenso roseiral! Tinha apenas um botão.
Um botão que se negava a abrir. Um botão com medo de ver a luz do dia.
Temia servir de escárnio aos demais. Temia que o seu néctar fosse insípido.
Temia ser a menos bonita do roseiral. Temia não ser digna de uma jarra.
Estava na hora de desabrochar, mas o botão negava-se e a roseira de tão frágil, não tinha força que o convencesse.
Mas então algo aconteceu! Mesmo encerrado, o botão lançou no ar o seu perfume.
Era um perfume suave e doce, mas com tanto de leve como de forte e tão forte era o odor, que galgou montes e vales, galgou rios e mares e chegou bem longe, lá onde o Sol aquecia as margens do Geba.
O Sol estremeceu perante tal perfume, quis saber de onde vinha tão inebriante fragrância e com toda a sua imponência, pediu à Terra que girasse mais rápido, queria chegar depressa. 
E a Terra rodou tão rápido como nunca, até que o Sol ficou sobre o imenso roseiral.
Lá estava ela, a frágil roseira e ele o detentor do mágico odor.
Então o Sol lançou sobre ele os seus raios, com a leveza de quem teme destruir um tesouro. A roseira estremeceu e ganhou força. O botão sentiu menos medo de se abrir à vida.
E durante muitos dias a Terra girou mais rápido sem que disso ninguém se apercebesse.
Só o Sol e a roseira o sabiam. Era o seu segredo!
E dia a dia o Sol ia beijando a roseira com raios ternos de carinho, com raios de força e coragem.
E a roseira ficou frondosa. E o botão desabrochou.
Então a roseira sentiu que a sua rosa era a mais linda do roseiral, não por vaidade, mas porque agradava ao Sol.
O tempo passou. A roseira crescia, crescia e os raios do Sol continuavam a beijá-la, agora com raios de amor e paixão, ora de mansinho, ora arrebatadamente.
A roseira era tão feliz! Ela cresceu e frutificou. Nasceram e abriram outros botões, agora sem medo, fortes de aroma. O aroma do amor! O aroma da paixão! Mas também delicados, com a fragrância da ternura, com o perfume da amizade, com a força do companheirismo que unia a Roseira e o Sol.
Até que um dia veio o eclipse fatal. O Sol e a Roseira perderam-se e não mais se puderam tocar.
A roseira enfraqueceu, quase se perdeu para a vida. Mas lá bem no fundo da raiz, ela foi encontrar o calor do Sol. Como que por magia, ele lá estava e com ele, ela conseguiu sobreviver.
Mas a Roseira aguarda o milagre, de que um dia o Sol possa libertar um raio, um que seja, que possa absorver todo o seu perfume, que possa transportar toda a vida que há em si e levá-la com ele.
E a Roseira sabe que, a partir desse dia, Roseira e Sol, Sol e Roseira, serão um só para toda a eternidade.
Nesse dia, o Sol deixará de ser apenas luz. Será luz e perfume e este perfume inebriará toda a Terra e todos os roseirais espalhando o verdadeiro amor por todos os corações. 
E lá em cima, o Sol e a Roseira serão felizes eternamente!

 (texto escrito em fevereiro de 2006)



Atividade no Centro de Dia de Cercal do Alentejo

Depois de me aposentar agarrei mais a sério esta minha vontade de me dedicar aos meus "meninos de cabelos brancos".
Entretanto, no Centro de Dia da Casa do Povo de Cercal do Alentejo, foram criadas aulas de ginástica, que estão a ser ministradas pela professora Ana Filipa Santos, uma profissional muito doce e competente, também filha da terra. Comecei então a apoiá-la durante as aulas, já que algumas pessoas com menos agilidade precisam de ajuda para executar alguns exercícios. Digo-vos que são uns momentos muito agradáveis, uma vez que vamos alternando os exercícios com algum diálogo e há sempre um clima de boa disposição. Também os resultados têm sido surpreendentes! Quer a agilidade, quer a resistência física têm apresentado uma evolução bastante satisfatória.  A "menina" da direita, é a mais "jovem" do grupo: a D. Custódia tem 99 aninhos!


Além desta manhã semanal, costumo passar também uma tarde nesta Instituição. Nesse período costumo ler contos populares portugueses de alguns livros que tenho ido adquirindo ou requisitado na Biblioteca Municipal de Santiago do Cacém; faço alguns jogos com a memorização de lengalengas, poesias, provérbios populares, adivinhas,...
Normalmente, no final da tarde, reservo sempre um tempinho para contarem acontecimentos da sua juventude, o que elas adoram! O mais importante é proporcionar-lhes alguns momentos de alegria e boa disposição!


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Início do Voluntariado

No Verão de 2005 dei início às atividades de voluntariado no Centro de Dia da Casa do Povo de Cercal do Alentejo!
Na altura a Instituição disponha de uma animadora sociocultural e em conjunto desenvolvemos diversas atividades. O grupo era alargado e constituído por pessoas ativas e com agilidade. Realizámos diversos trabalhos manuais, com recurso à pintura, costura, bordado... fizemos algumas recolhas de património oral, tradições locais...
Comecei por ir 2 vezes por semana e acabei indo quase todos os dias. Criei laços de amizade que duram até hoje e aprofundei outros, porque muitas das "meninas" que lá estavam, eram conhecidas ou amigas da minha mãe.
Quando as aulas iniciaram, recebi uma turma de 1ºano e resolvi motivá-los a participar num projeto que envolvesse o Centro de Dia. Achei que ambos os lados ficariam a ganhar. As crianças levariam aos idosos a sua alegria e conhecimentos e eles partilhariam com elas o seu saber e o seu carinho. Com o apoio da animadora e da Instituição, tenho consciência que desenvolvemos um lindo projeto! Diria, um Doce Projeto!!!
Na primeira sessão, cada criança escolheu uma avó e mesmo fora da escola, quando se encontravam, elas chamavam-nas de avó. Também quis muito arranjar avôzinhos, mas... só mais tarde e para atividades esporádicas.
Nesse 1ºano houve partilhas de histórias, as avózinhas ajudaram as netas a fazer bonecas de trapo, que ficaram lindas e lá apareceram alguns avôzinhos para ensinar os rapazes a fazer os carrinhos, com latas de conserva, caricas e arame e para jogar ao dominó.
Este projeto manteve-se durante todo o percurso desta turma no 1ºciclo e todos os anos foram desenvolvidas atividades.
As avózinhas ensinaram danças de roda, o jogo dos jangros (com pedrinhas), histórias e tradições. As crianças por sua vez, tudo o que ensaiavam para as festas da escola, queriam ir fazer à Casa do Povo e sempre que possível, as avózinhas vinham à escola assistir às festinhas.
Julgo que este projeto conseguiu incutir nestas crianças o respeito pelos idosos, ensinou-os a valorizar o saber dos mais velhos, a desenvolver o gosto pela partilha e a serem solidários.

Dança de Roda


 Jogo dos Jangros




quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A Paixão pelo Voluntariado



A minha paixão pelo voluntariado já era muito antiga! Creio que nasceu numa aula do Magistério Primário de Beja, aquando da visita de um padre missionário. A forma como ele relatava o seu trabalho, fez nascer em mim o desejo de também eu poder viver essa experiência. Nessa altura, não fosse o meu coração ter já criado raízes que me prendiam aqui, teria ido para África com toda a coragem.
Mas esse sonho nunca foi completamente esquecido!
 Com o decorrer do tempo, a vida encheu-se de pessoas para cuidar e amar, de um trabalho que também sempre me apaixonou, pois representava também o concretizar de um sonho de infância: o desejo de ser professora.
Com a ideia de um dia me dar àqueles que de mim precisassem, sempre em mira, não deixei de incutir nos meus alunos a vontade de ser útil a quem mais precisa e a quem tem menos que nós. Em conjunto com eles desenvolvemos alguns pequenos projetos a favor de algumas instituições e de algumas causas. Enchia-me de felicidade e de orgulho ver a alegria e a entrega com que as minhas crianças se dedicavam a esses projetos a favor da UNICEF, de uma escola carenciada da Guiné Bissau, do Banco Alimentar e outras pequenas coisas.
Esperava, um dia após a aposentação, partilhar o meu tempo com atividades de voluntariado!
Mas a vida pregou-me uma grande partida, daquelas em que o chão nos foge, o céu se fecha e a estrada apenas nos conduz a um poço tenebroso que parece não ter fundo. Então fiquei condenada a sobreviver nele, alternando entre aguentar-me à superfície ou bater no fundo. Mantinha-me à tona enquanto trabalhava, porque o amor pelo que fazia me apaziguava o coração e a alma. O trabalho tornou-se a minha tábua de salvação, o meu oásis de paz, o meu anestésico…
Com a aproximação das férias de verão, consciencializei-me de que tinha que encontrar algo que me tirasse daquela casa, que de repente crescera em todos os sentidos, que me sufocava e me estrangulava. Então acendeu-se uma luzinha no meu coração que me fez vislumbrar o único caminho que me garantia a sobrevivência: Fazer voluntariado no Centro de Dia de Cercal do Alentejo!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Olhar em Volta


                                          
Cada vez os afazeres da vida mais nos atropelam e cada vez mais nos vemos mergulhados numa sociedade consumista e individualista, que nos impede de olhar à nossa volta. 
Cada vez mais nos esquecemos que, muitas vezes, o que de mais importante podemos dar aos outros, não se encontra à venda em qualquer centro comercial. 
O que de mais valioso podemos partilhar com quem está à nossa volta, às vezes até nem custa dinheiro e está à nossa mão, basta abrirmos o nosso coração e darmos um pouco de nós, do nosso tempo, do nosso afeto e da nossa atenção. Se estivermos atentos e olharmos à nossa volta descobrimos olhares sem luz e bocas que já se esqueceram como se abrir num sorriso. 
Dentro do peito, todos temos uma paleta mágica, com a qual podemos pintar sorrisos e restituir o brilho a olhares vazios e perdidos. E esse brilho e esses sorrisos que pintarmos, podem crer, aquecem-nos a alma e enchem-nos o coração de felicidade, porque o que recebemos de volta, é sempre muito mais, do que aquilo que damos.
Também um dia se me apagaram as luzes do olhar e os sorrisos dos lábios, e foi pintando sorrisos e brilhos noutros olhos, que como os meus não brilhavam, que descobri que as dores ficam menores, a alma mais serena e o coração mais quente quando olhamos à nossa volta e damos um pouco de nós aos outros.